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Morre o radialista Walter Silva, o Pica-Pau

Walter ao lado de Elis Regina em 1976 nos Bastidores do Falso brilhante

Walter ao lado de Elis Regina em 1976 nos Bastidores do "Falso brilhante"

Morreu nesta sexta-feira (27), aos 75 anos, o jornalista e radialista Walter Silva. Silva, que era cardiopata e tinha insuficiência cardíaca e renal, estava internado no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

De acordo com o boletim médico do Incor, a causa da morte do radialista foi um choque séptico.

Nascido em São Paulo, Walter Silva, conhecido como Pica-Pau, iniciou sua carreira em 1952 na rádio Piratininga como locutor comercial. Teve passagens pelas rádios Nacional, Mayrink Veiga e Mundial do Rio de Janeiro.

Em 1956, assinou contrato com a gravadora RGE, tornando-se o primeiro radialista a apresentar programas do gênero disk-jóquei, na rádio Record de São Paulo.

Mas foi na década de 60 que Silva escreveu, definitivamente, seu nome na história da música brasileira. Foi ele, por exemplo, que teve a missão, de registrar, com exclusividade, como repórter da Rádio Bandeirantes, o famoso concerto de Bossa Nova no Carneggie Hall, em Nova York, onde os americanos puderam conferir a batida inovadora do violão do baiano João Gilberto.

Em 1964, atento ao que surgia de novo na música brasileira, Silva ajudou, através de festivais organizados por ele, a divulgar os novos compositores da música brasileira, entres eles, Chico Buarque, de quem o radialista produziu o primeiro disco “Pedro Pedreiro”.

Foi também nessa época que Silva começou a chamar a atenção para a voz de uma menina de 19 anos recém-chegada do Rio Grande do Sul. Era Elis Regina que acabara de chegar a São Paulo para divulgar seu primeiro LP. Em um dos seus encontros com Elis, Silva lhe disse: “Menina, você será a maior cantora do Brasil”.

Um ano depois, em 1965, Walter produziu o show Dois na Bossa, que juntou no Teatro Paramount, em São Paulo, a dupla Elis Regina e Jair Rodrigues.

Do show foi lançado um LP que ficou marcado por ser o primeiro a vender mais de um milhão de cópias no Brasil. Silva também acompanhou de perto dos primeiros passos de artistas como Gilberto Gil, Milton Nascimento, Toquinho e o grupo Secos & Molhados.

Durante a década de 70, o radialista também passou a assinar colunas sobre música brasileira em jornais como Folha de S. Paulo e foi diretor de musicais do programa Fantástico, da TV Globo. Silva também atuou como diretor do programa da apresentadora Hebe Camargo, na TV Bandeirantes, e foi narrador esportivo.

Em 2000, Silva recebeu o prêmio Wladimir Herzog de Direitos Humanos por participar da diretoria do sindicato dos jornalistas quando o jornalista foi morto nas dependências do DOI-CODI, em 1975.

Seu último programa de rádio foi o “Acervo Walter Silva”, na Rádio Cultura, de São Paulo. O programa ficou no ar até dezembro de 2008, quando o radialista foi demitido da emissora, o que, segundo declarações de Silva na época, teria sido a causa de uma depressão.

Sua filha, Celina Silva, também se aproximou da música. No final do anos 80, ela foi assessora da cantora Elis Regina. Celina, inclusive, foi um das primeiras pessoas a chegar no apartamento da cantora quando Elis foi encontrada morta, em 1982. Atualmente, Celina atua como assessora de imprensa.

Silva será velado na Câmara Municipal de São Paulo, no Centro.

O acervo guardado por Walter Silva em seus mais de cinquenta anos de carreira tem um valor histórico e cultural imensurável para a música popular brasileira. Testemunha do “nascimento” de diversos artistas e de importantes momentos da MPB, Walter costumava gravar concertos de que participava como jornalista e fazia questão de armazenar as principais entrevistas que fazia em seus programas de rádio.

O baú de Walter Silva guarda, por exemplo, registros do Show da Bossa Nova no Carneggie Hall de Nova York e um registro da cantora Sylvinha Telles na boate Zum-Zum do Rio de Janeiro, em 15 de junho de 1964, que nunca virou disco.

Silva também guarda uma entrevista com a cantora Elis Regina logo após a sua lendária apresentação no Festival de Montreux, na Suíça. No bate-papo, reproduzido pelo jornal Valor Econômico, em janeiro de 2002, Elis fala sobre a experiência de se apresentar no badalado festival europeu. “De repente, você está naquele palco, naquele lugar. Isso supera o racional. Você fica em estado de choque. Fui empurrada para o palco. Tive uma crise de catatonia, catalepsia, sei lá que ‘ia’, qualquer dessas aí. Fiquei parada e o André (Midani) me falou: ‘Vai’. E eu não reagia. Não conseguia falar, a perna não mexia, estava gelada. Não sabia o que fazer e a minha mão dormiu. Você calcula a piração em que eu estava naquela hora?”

É preciso zelar pelo destino do acervo de Silva – que também produziu shows como nomes como Nara Leão, Edu Lobo, Maria Alcina e Os Cariocas. Se vier a público, a história da MPB ganhará outras importantes páginas em sua história.

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