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Cupim : quem é esta criatura

Vejam que interessante e didática esta “entrevista” com o cupim

Cupim nas construções é motivo de grande preocupação e de prejuízos importantes. Madeira preservada é uma solução inteligente para evitá-lo – e a outros organismos xilófagos – com a melhor relação custo/benefício do mercado.

A “entrevista” com o inseto que transcrevemos a seguir é uma forma leve que elaboramos, há algum tempo, para contar ao maior número de pessoas, e não só aos especialistas, como são e agem estes insetos ao mesmo tempo assustadores e admiráveis. Informação é o primeiro passo e a melhor forma de enfrentá-los.

Por isso, começamos agora a contar de maneira ficcional algumas experiências reais com cupins, seu combate e prevenção nas construções. A receita é simples: informação séria temperada com humor.

Conseguimos um furo com o cupim. Até aí nenhuma novidade. Tem gente que conta furos aos milhares e fica furiosa. Não importa. Nosso furo é diferente, é jornalístico. Trata-se de uma entrevista exclusiva. Nela,” a fera” – é assim mesmo que muitos o vêem depois de contabilizar prejuízos – fala de sua carreira que não é só de crimes contra o patrimônio. Fala também da família, dos amigos e até dos amores.

Curta a seguir o lado afetivo deste inseto tão incompreendido quanto marginalizado.

Você deve ser o inseto mais badalado na mídia. De onde vem tanto sucesso?

Cupim: Fico lisonjeado, mas esse tipo de sucesso dá muita dor de cabeça. Jornalistas e paparazzi em geral me adoram. Provavelmente, por que dou muito furo.

Mas a maior parte das pessoas acha mesmo que sou um monstro, sempre à espreita de um descuido nos lares para atacar. Não os condeno. Afinal, quem tem cupim tem medo!

Mas não é assim?

De jeito nenhum. Saiba que em todo o planeta existem cerca de duas mil espécies de cupim. Só no Brasil existem umas 250. Eu e meus parentes estamos ecologicamente integrados. Somos bons recicladores de árvores mortas nas florestas e também servimos de alimento – dos mais saborosos, por sinal – para pássaros, tamanduás e outros apreciadores da gastronomia entomológica (Entomologia é o ramo da ciência que estuda os insetos).

Então explique essa fama de bad boy.

Veja, dessa variedade enorme de espécies, poucas causam prejuízos ao Homem infestando suas casas, devorando móveis e livros. Vamos destacar os cupins de madeira seca e os cupins subterrâneos os mais terríveis. Outros membros do nosso clã, praticamente, apenas dividem a má fama… Aliás, o grande responsável por nossa proliferação nas cidades é o próprio Homem. Vocês provocam desequilíbrios ecológicos, eliminam nossos predadores naturais, nos oferecem alimento abundante com técnicas de construção que não prevêem tratamento de madeiras, enterram madeiras velhas no chão e ainda reclamam. Ora. (risos).

Como eles agem?

Os cupins de madeira seca formam seus ninhos dentro de uma única peça de madeira. Um móvel, por exemplo. Ali o casal real vai criar seus filhos, netos, bisnetos…até acabar o alimento. Já o cupim subterrâneo esconde seu ninho debaixo da terra. Daí vai criando túneis enormes por onde se deslocam os operários que vão buscar comida longe, às vezes até mais de cem metros de distância do ninho.

E aquele pozinho fino que vocês deixam?

Aquele pozinho é excremento. Dá para diferenciar os nossos dos da broca, um outro inseto que também come madeira. Mas não tem comparação. O pozinho bem fino, como talco, geralmente é de broca. Aquele mais granulado é, geralmente, do cupim de madeira seca. O do cupim subterrâneo mal aparece. Cupim subterrâneo recicla as próprias fezes, fazendo as paredes dos túneis por onde se deslocam. Quase não deixa pistas a não ser para quem conhece seus hábitos. Por exemplo, dentro de caixas de luz e dos interruptores, a presença de terra é tiro e queda. Tem cupim subterrâneo no pedaço.

Cupim transmite doença?

Se você estiver falando de saúde financeira, sim. Quanto às pessoas e animais, não. Somos bichos superlimpinhos.

Existem cupins que comem plástico e concreto?

Ah, isso de cupim comer concreto, plástico e até ferro é bobagem. Só comemos mesmo material celulósico. Agora, como temos mandíbulas superfortes desgastamos qualquer material que esteja entre nós e o alimento. Não somos de fazer rodeios, por isso atravessamos mesmo o obstáculo. Mas só comemos mesmo a madeira que está do outro lado.

Querosene, óleo queimado, essas coisas te assustam?

Fazem cócegas. Corro o risco de morrer de rir. Essas coisas podem até matar cupins por afogamento, mas os sobreviventes levam a notícia ao casal real e eles produzem irmãozinhos em ritmo acelerado para repor os que morreram.

Então cupim conversa?!

Não como gente, mas conversa. Por isso é que somos insetos sociais. Utilizamos um sistema hormonal – os chamados feromônios – para dizer se há muito ou pouco alimento, ataques sofridos, etc. Não adianta querer nos matar como se mata baratas ou pulgas. Se não for eliminada a central de inteligência, que é o casal real, uma nova infestação virá com toda a força. A melhor resposta é informação, madeira preservada e mais informação.

E essas empresas que garantem acabar com cupins de uma vez, cobrando preços incríveis por metro quadrado de infestação ou por litro de produto utilizado no trabalho de desinfestação?

Quem não me conhece muito bem não consegue sequer chegar perto. Para dar garantia sem ter visto o tamanho do estrago que fizemos, ou eles não têm mesmo noção do que estão falando, ou querem só meter a mão no bolso do freguês e sair de perto rapidinho.

Fale da sua intimidade, a parte afetiva (risos).

Cupins são muito discretos, sensíveis. Detestamos a luz do dia, sofremos de fotofobia. Só fazemos alarde naquelas tardes quentes e úmidas da primavera e verão, quando chega para nós a estação do amor. O cupinzeiro se mobiliza para a reprodução da espécie. É o momento da revoada dos nossos parentes alados em busca de novos amores.

Românticos siriris – ou aleluias – entram pelas janelas esquecidas abertas e giram loucamente em volta das luminárias com suas luzes acesas, coisa de amantes. Nossa pele, normalmente branquinha, adquire pigmentação e resistência momentânea à luz. Achada a cara-metade, lá se vai a duplinha apaixonada se entocar, formar um novo ninho, gerar milhões de descendentes em colônias que serão maiores ou menores dependendo da disponibilidade de alimento. É o casal real que terá uma casta de operários para servi-los e soldados para defender o ninho.

De onde vem seu nome, cupim?

Em outros países, chamam-me de térmita, espécime dos isópteros. Quer dizer, inseto de quatro asas membranosas iguais e um poderoso aparelho bucal para mastigar. Somos do tipo social, organizado. Só no Brasil me chamam de cupim. A explicação que tenho não passa de especulação. Nos campos existem montes de terra endurecida com nossa saliva, que se assemelham aos cupins que os bois carregam no cangote. Provavelmente, eles emprestaram o nome para nosso batismo por aqui.

Flavio Carlos Geraldo

Vice-presidente da Associação Brasileira dos Preservadores de Madeira

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