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Hepatite C ligada à promiscuidade sexual

Pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) constatou que homens jovens e promíscuos são as vítimas preferenciais da hepatite C, doença ainda incurável cujos mecanismos de transmissão não são bem conhecidos.

Segundo Paolo Zanotto – virologista do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e coautor do estudo –, foram analisados 591 portadores do vírus em São Paulo, o que permitiu a sua equipe verificar que a transmissão do vírus está diretamente relacionada às “conexões” que uma pessoa estabelece.

Ele ressalta que a análise das conexões por meio do número de parceiros sexuais não é à toa. “O sexo é um bom indicador de como são formadas as estruturas sociais”, explica. Entre os pacientes com “alta conectividade” (que tiveram mais de 50 parceiros sexuais), 60% tem o subtipo 1ª da doença e a maioria está na faixa etária de 30 anos. Já os de “baixa conectividade” (menos de cinco parceiros sexuais), 40% tem o subtipo 1b da hepatite C e foram contaminados por transfusão de sangue.

Camila Malta Romano – pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo da USP e coordenadora do estudo –, acrescenta que menos de um terço dos pacientes infectados pelos subtipos 1ª e 3ª da doença são usuários de drogas injetáveis. Claramente o vírus está sendo transmitido por outras vias.

Para a especialista, as pessoas mais jovens e os homens, que têm mais parceiros sexuais do que as mulheres, estão no grupo de risco. “Não existe confirmação de que a relação heterossexual possa transmitir hepatite C. Mas observamos uma maior incidência de um subtipo do vírus entre pessoas com mais parceiros”, diz Romano.

Os cientistas também notaram que o subtipo 1ª do vírus, mais comum nos grupos considerados “mais conectados”, é o que mais tem crescido em número de casos. Estima-se que 190 milhões de pessoas no mundo tenham hepatite C. No Brasil, aproximadamente 2% da população está contaminada. Ainda não há vacina.

Tire todas suas dúvidas sobre o assunto

– O que é hepatite C?

A hepatite C é uma doença inflamatória do fígado, causada por um vírus denominado VHC (vírus da hepatite C).

– Como é transmitida a hepatite C?

A transmissão da doença acontece quando o sangue contaminado pelo vírus da hepatite C (VHC) penetra na corrente sanguínea de um indivíduo sadio.

– Existe vacina para a hepatite C?

Não. Ainda não existe vacina para a hepatite C.

– Quais as principais vias de transmissão?

1) Transfusão de sangue (principalmente antes de 1992) e derivados de sangue;
2) Transplantes de órgãos e tecidos;
3) Agulhas, seringas e ferimentos;
4) Uso de drogas injetáveis ou aspiradas;
5) Hemodiálise;
6) Tatuagens e piercings;
7) Outros materiais que possam conter sangue contaminado.

– Como posso saber se eu tenho hepatite C?

O diagnóstico da hepatite C é feito através do exame anti-HCV. Este exame pesquisa o anticorpo contra o vírus e é feito através de uma simples coleta de sangue. Fale com seu médico e faça o teste.

– Como é a evolução da hepatite C?

A evolução da doença é lenta e pode chegar a mais de 30 anos sem que o doente perceba. Algumas consequências possíveis são hepatite crônica, cirrose e câncer de fígado. Tanto a cirrose como o câncer de fígado podem levar a uma indicação de transplante de fígado.

– Existe tratamento para a hepatite C?

Sim. A combinação de dois medicamentos, o interferon convencional ou interferon peguilado mais a ribavirina, representa hoje o tratamento padrão para pacientes com hepatite crônica C.

– Existe cura para a hepatite C?

É possível eliminar o vírus da hepatite C do sangue. Esta eliminação é chamada de resposta virológica sustentada e alguns médicos a classificam como “cura”. A única maneira possível de se eliminar estes vírus é com o tratamento, por isso é indispensável que o paciente cumpra todas as orientações médicas.

– Preciso seguir uma dieta especial durante o tratamento?

Não existe uma dieta estabelecida, mas todas as pessoas se beneficiam de uma alimentação saudável. É aconselhável a ingestão de proteínas, de preferência vegetal (soja, grãos integrais), muita água para ajudar na desintoxicação do organismo, frutas frescas e legumes.

Alerta: hepatite C em ex-jogadores de futebol

Risco se deve ao uso de complexos vitamínicos em seringas

A hepatite tipo C teve seu auge na década de 70 quando atletas compartilhavam seringas e agulhas para fazerem uso de medicação por via intravenosa para tratar de dores adquirirem mais vitalidade.


Trinta pessoas, duas seringas e três agulhas. Para esterilizar o material, água fervente apenas. “Colocavam uns dois minutinhos na panela, mas era muita gente para tomar os complexos vitamínicos que todos nós usávamos naquela época”, lembra Nilson Pereira Gomes. A cena se repetiu nos vestiários, antes de treinos e jogos, durante os 10 anos como jogador de futebol. Hoje diagnosticado com o vírus da hepatite C, o ex-craque que brilhou no Palmeiras, no Botafogo e no Vitória, na década de 60, participa de uma campanha que será lançada em maio pela Federação das Associações de Atletas Profissionais, cujo objetivo é alertar o grupo para o risco da hepatite. “Pouquíssimos escapam de ter contraído”, constata Nilson. “O problema é que muitos temem ser identificados como pessoas que fizeram doping, mas a aplicação dessas substâncias era completamente usual naquele período.”

A ideia da campanha, que conta com o apoio da Sociedade Brasileira de Hepatologia, surgiu da explosão de casos nas redes de saúde. O presidente da entidade, Raymundo Paraná, conta ter notado uma alta frequência de ex-atletas, especialmente jogadores de futebol, no ambulatório onde atende, na Universidade Federal da Bahia. “Diante disso, comecei a solicitar que os antigos colegas desses pacientes fossem examinados também. E o resultado foi positivo em muitos casos para a hepatite C, transmitida basicamente pelo uso coletivo de instrumentos contendo sangue de outra pessoa”, explica Paraná. De acordo com o médico, o diagnóstico tardio é comum: “A doença é geralmente silenciosa e só dá sinais depois de 20, 30 ou 40 anos”.

Dessa forma, os médicos chegaram à conclusão de que o Brasil tem uma peculiaridade em relação à população de risco para a doença. “Além dos grupos internacionalmente apontados como vulneráveis, como os usuários de drogas injetáveis, pessoas que fizeram transfusão antes de 1994 ou que se tatuaram em ambientes inseguros, os ex-atletas, sobretudo os que atuaram nas décadas de 70, 80 e 90, entraram nessa lista”, afirma Paraná. Ele ressalta que era muito comum naquele período o uso de drogas lícitas injetáveis, muitas vezes com material mal esterilizado. “Não se tinha essa cultura do descartável, até porque não se sabia muito sobre as doenças transmitidas pelo sangue”, explica o médico. Embora o alerta seja dirigido a todos os ex-atletas, jogadores de futebol são os mais propensos a terem sido contaminados, adverte o hepatologista.

Presidente da Federação das Associações de Atletas Profissionais e tricampeão mundial de futebol, Wilson Piazza, ressalta que o alerta será dirigido não só aos ex-esportistas, mas à população em geral. “Muito se fala em dengue, gripe suína, mas as pessoas se esquecem que a hepatite é uma doença séria e quanto mais cedo descoberta, melhores as chances do indivíduo”, ressalta.

Embora o formato final da campanha não esteja delineado, a ideia do ex-jogador que integrou tanto a seleção brasileira de 1970 quanto a de 1974, é contar com a adesão de ídolos do futebol daquele período para chamar a atenção da sociedade e do governo. “Tentaremos audiências em ministérios e com o presidente da República. Talvez, juntos, possamos divulgar melhor a campanha”, afirma. Nomes de peso, como Pelé e Rivelino, são cogitados.
A manifestação deve ocorrer em 19 de maio, Dia Mundial de Combate às Hepatites Virais. O tipo C mata cerca de 460 pessoas por ano no Brasil.

Álcool

Segundo Paraná, além dos vestiários de atletas, o uso de injeções com o material higienizado precariamente era comum também no carnaval. “As pessoas bebiam e acreditavam que aplicar insulina amenizaria os efeitos do álcool”, explica Paraná.

Aplicações de anestésicos e corticoides nas articulações eventualmente doloridas antes dos jogos também eram corriqueiras. Garrincha se submetia constantemente a esse tipo de tratamento.

Muitos relatos de membros da Sociedade Brasileira de Hepatologia chegaram à cúpula da entidade depois das primeiras reuniões sobre a campanha, segundo Paraná. “Recebemos três e-mails em dois dias. Um profissional do Sul nos avisou que estava tratando 71 ex-jogadores de futebol. Um do Mato Grosso têm 30 ex-atletas doentes. E em Fortaleza, no Ceará, um médico tem seis pacientes que também jogaram futebol no passado”, lembrou Paraná.

Mais pessoas vacinadas

Depois de começar 2010 com um novo protocolo para tratamento da hepatite B, incluindo três medicamentos, o Ministério da Saúde expandiu a população autorizada a tomar a vacina contra a doença gratuitamente na rede pública de atendimento. Antes restrita à faixa etária de 11 a 19 anos, a imunização vai beneficiar grupos específicos, tais como gestantes, doadores de sangue, manicures e homossexuais, independentemente da idade. A decisão saiu em 2 de maio.

Para Ricardo Gadelha, coordenador do programa de hepatites virais do Ministério da Saúde, a ampliação ajudará a evitar a proliferação do vírus B, diagnosticado em 11 mil pessoas por ano, em média. Em nove anos, segundo ele, 4.200 pessoas morreram vítima da doença nos últimos nove anos, transmitida basicamente via relação sexual.

“A hepatite B é assintomática. Então, muitas vezes, o paciente chega com uma cirrose ou uma deficiência hepática muito grande”, explica Gadelha. Quanto ao novo protocolo, o coordenador ressalta que ele foi fruto de um consenso entre especialistas. “Pesquisas internacionais já apontavam que o vírus teria criado resistência ao tratamento comumente usado nos últimos anos”, explica. Gadelha diz que o Ministério da Saúde já fez a compra dos novos remédios para abastecer estados e municípios durante 2010 inteiro. “A distribuição já começou, todos os estados receberam”.

O presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, Raymundo Paraná, que participou da modificação no protocolo, ressalta que há queixas em várias partes do Brasil de falta do medicamento, mas não responsabiliza o governo federal. “Aí é preciso haver o comprometimento dos gestores locais também. Se eles não estiverem sensibilizados, dificilmente o paciente será atendido”, afirma. (RM)

É preciso haver o comprometimento dos gestores locais também. Se eles não estiverem sensibilizados, dificilmente o paciente será atendido”
Raymundo Paraná, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia

» Pelo país

55 – Ex-jogadores de futebol com hepatite C são tratados atualmente no ambulatório da Universidade Federal da Bahia

777.714 – Casos de hepatite (A, B, C e D) registrados no Brasil de 1999 a 2008

270 – A média de casos de hepatite (A, B, C e D) registrados por dia no país

» Caso a caso
Veja quais são os grupos contemplados com a vacina

# Gestantes após o primeiro trimestre de gestação
# Trabalhadores da saúde
# Bombeiros e policiais (militares, civis e rodoviários)
# Carcereiros
# Coletadores de lixo hospitalar e domiciliar
# Doadores de sangue
# Homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais
# Pessoas reclusas (em instituições psiquiátricas, instituições para menores,
# Forças Armadas, entre outras)
# Pedicure, manicure e podólogo
# População de assentamentos e acampamentos
# Indígenas
# Potenciais receptores de transfusões e sangue ou politransfundidos
# Profissionais do sexo
# Usuários de drogas injetáveis, inaláveis e pipadas
# Portadores de DST
# Caminhoneiros

Renata Mariz/CorreioBraziliense
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