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Alzheimer: Um acerto de contas

A escritora carioca Heloisa Seixas lançou o livro “O lugar escuro – uma história de sensibilidade e loucura” (Ed. Objetiva), em que relata o convívio com sua mãe, vítima do mal de Alzheimer.

A convite da revista CLAUDIA, ela escreveu este artigo ( que reproduzo parte abaixo)sobre sua experiência pessoal com uma das doenças mais perturbadoras do nosso tempo:

” Um dia peguei uma revista americana para folhear, mas não consegui abri-la. Meus olhos se prenderam à fotografia da capa. Era uma foto de um lobo ou cão de pêlo escuro, com os dentes à mostra e os olhos arregalados. Aquela imagem não era a tradução do medo – mas, sim, de outro sentimento, poderoso e destruidor. Pensei, num delírio, que, se ele o fizesse, eu não me deixaria morrer de forma passiva, mas o agarraria pelo pescoço e apertaria com toda a força. Seria uma luta encarniçada. E, nesse instante, veio a compreensão do sentimento que me evocava a fotografia: não era medo, era ódio.

A constatação me deixou inquieta. Havia uma razão: minha mãe começava a mostrar os primeiros sintomas do mal de Alzheimer. O Alzheimer costuma provocar misericórdia – mas também suscita sentimentos menos nobres, como a revolta, a raiva e, em conseqüência, a culpa. Era o que acontecia comigo.

Mamãe, que sempre fora uma mulher forte, independente e decidida, tornara-se um ser frágil, carente, emocionalmente desequilibrada. E eu com dificuldade de conviver com a pessoa desconhecida que surgia. Baixei a cabeça e tornei a observar os olhos cor de fogo do lobo preto na revista. Havia um animal igual àquele dentro de mim.

Quando se manifesta, o mal de Alzheimer traz consigo vários males, que se infiltram na vida do doente e de todos que convivem com ele. A raiva é um desses males. Os parentes não conseguem compreender o que está acontecendo, negam a doença – ou simplesmente a desconhecem – e com isso acabam sendo tomados por um sentimento de revolta. Hoje, depois de conviver com a doença de minha mãe por mais de dez anos, eu me arriscaria a dizer que, se houvesse um maior esclarecimento sobre o problema, os casos de violência contra os idosos diminuiriam.

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) divulgou uma previsão assustadora: em dez anos, vai quase dobrar o número de pessoas com essa doença no Brasil. Hoje, há cerca de 16 milhões de brasileiros com mais de 80 anos, faixa etária em que a porcentagem de casos de Alzheimer pode chegar a 40%.  Em 2 017, serão 24 milhões de idosos acima dessa faixa etária.  São projeções, mas já dá para pressentir o alcance desses números.

É raro falarmos no assunto Alzheimer sem ouvir o interlocutor dizer que tem um caso na família ou que sabe de alguém que tem. O mal parece estar em toda parte. E continuamos sabendo tão pouco sobre ele.

O mal de Alzheimer não é simplesmente a perda da memória. Todas as dores mal trabalhadas, todas as mágoas acumuladas ao longo de anos – coisas naturais nas convivências familiares – começam a aflorar. Os pequenos nós, os pontos doloridos, se fazem sentir com mais agudeza, e isso torna as relações entre o doente e seus parentes quase insuportáveis.

Em 1906, o neuropatologista alemão Alois Alzheimer pesquisou o cérebro de uma paciente sua, morta aos 55 anos com demência precoce, e descobriu emaranhados fibrosos dentro de seus neurônios, ele estava inscrevendo seu nome na história da medicina.

Mas o que até hoje ninguém sabe é por que esses emaranhados neurofibrilares e placas neuríticas – que, grosso modo, apagam os neurônios – aparecem. Há um inegável fator genético, mas a doença tem sido também associada a fatores externos, como impulsos elétricos, stress e alimentação (a incidência de alumínio encontrada em cérebros de portadores da doença é altíssima).

Uma pesquisa mostrou que entre os portadores de demências senis há uma grande porcentagem de pessoas solitárias – ou melhor, que se dizem solitárias, mesmo não sendo. O mal de Alzheimer é mais comum entre pessoas incapazes de superar as próprias perdas, pessoas que guardam mágoas e alimentam o sofrimento. Será?

Devemos deixar aos cientistas a busca dessas respostas. Mas, enquanto isso, temos de aprender a conviver com o problema da melhor forma possível. Em meio ao turbilhão de horrores, nem sempre é fácil ter compaixão. Em geral, o que eu mais sentia era raiva. Era o lobo selvagem dentro de mim, mostrando seus dentes. Não me envergonho de dizer isso.

Houve momentos, durante o processo de esfacelamento da mente de minha mãe, em que senti que me degradava também, que me desfazia, que ameaçava resvalar perigosamente para o outro lado – o lado da insanidade. Penso que essa foi uma das razões que me levaram a escrever um livro sobre o mal de Alzheimer. “O LUGAR ESCURO – UMA HISTÓRIA DE SENILIDADE E LOUCURA” é um relato da minha convivência com a doença e também uma viagem ao fundo da mente de minha mãe. Uma catarse que me ajudou a entender e, principalmente, a aceitar muitas coisas.

Acho que esta é a palavra-chave: aceitação. Não é fácil ver alguém com quem se conviveu por toda a vida se transformar em outra pessoa. Aceitar esse processo de entendimento e aceitação talvez seja ainda mais difícil. Porque as relações entre pais e filhos são muito fortes, viscerais, e por isso mesmo quase sempre difíceis.

Quando me convenci de que era um caso de demência senil, a raiva e a revolta deram lugar à compaixão. Eu me reconciliei com minha mãe. Hoje, converso com ela, mesmo sabendo-a incapaz de compreender o que estou dizendo;  falo de mágoas, equívocos, ciúmes, sentimentos que por muitos anos tinham ficado sufocados – nela ou em mim. E ela, às vezes, em rasgos de lucidez, diz frases pertinentes, que me tocam e surpreendem. Mas o importante é que hoje consigo acariciá-la, ficar a seu lado, brincar com ela – muito mais do que antes. No fim, o mal de Alzheimer foi para nós duas um acerto de contas. No bom sentido.

Fonte:  Revista Claudia Dez 07

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