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LIVRO: as cartas de amor de Fernando Pessoa

É uma edição da Assírio & Alvim (R$ 67,40, 368 págs., importado, na Livraria Cultura) e traz novidades. Além da inclusão de parágrafos omitidos na primeira edição das cartas de Ofélia, o livro inclui duas cartas inéditas da namorada de Pessoa.

Quando o heterônimo Álvaro de Campos escreve, em 1935, o poema “Todas as Cartas de Amor São Ridículas”, Fernando Pessoa já não namorava Ofélia Queiroz.

“Quem me dera no tempo em que escrevia/ Sem dar por isso/ Cartas de amor/ Ridículas.”, diz o poema. “A verdade é que hoje/ As minhas memórias/ Dessas cartas de amor/ É que são/ Ridículas.”

Pela primeira vez, nas livrarias portuguesas, encontram-se as cartas de amor de Fernando Pessoa (1888-1935) e de Ofélia Queiroz (1900-1991) reunidas em uma única edição e obedecendo a um critério cronológico.

Em 2013, como parte da programação do Ano de Portugal no Brasil, a obra será editada em nova versão pela brasileira Capivara. “O nosso livro sairá em maio com cerca de 170 cartas a mais e apresentará as cartas de Pessoa em fac-símile”, disse à Folha a editora Bia Corrêa do Lago.
Em Portugal as cartas do poeta foram publicadas pela primeira vez em 1978, e as de sua amada ganharam uma edição em 1996.Até a publicação da edição brasileira, a edição organizada pela acadêmica Manuela Parreira da Silva é a mais completa reunião das cartas trocadas entre o poeta e Ofélia.

Bia lembra que no prefácio dessa edição dos anos 1990 se dizia “que apenas 110 das 276 cartas enviadas por Ofélia estavam transcritas”. A edição brasileira terá as cartas que faltam nas edições portuguesas e que pertencem a seu marido, o colecionador Pedro Corrêa do Lago.

APAIXONADOS

Foi em novembro de 1919 que se conheceram, quando Ofélia tornou-se, aos 19 anos, secretária do escritório Félix, Valladas & Freitas, onde o autor de “Mensagem” trabalhava como tradutor comercial.

Foram trocando bilhetinhos até que em janeiro do ano seguinte, durante uma falta de luz no escritório, o escritor se declarou, citando “Hamlet”, contará ela mais tarde.

Nesta edição estão as 51 cartas que Pessoa escreveu a Ofélia Queiroz, entre março e novembro de 1920 (na primeira fase do namoro) e entre setembro de 1929 e janeiro de 1930 (na segunda fase).

“Os altos e baixos do ‘enredo’, as oscilações de humor, os ritmos ‘cardiográficos’ tornam-se, por assim dizer, mais fáceis de detectar numa edição como esta”, acredita a organizadora.

O casal marca encontros secretos, fala de problemas de saúde. E muitas vezes demonstra ciúmes.

Os dois brincam e falam como se fossem crianças, e Ofélia entra no jogo dos heterônimos do poeta.

Pessoa, no entanto, nunca quis ir à casa dela nem conhecer os seus familiares e também nunca falou da namorada à sua família.

Na carta que o escritor lhe envia para acabar com o namoro, em novembro de 1920, pergunta se ela prefere que ele devolva as cartas acrescentando que preferia conservá-las “como memória viva de um passado morto”.

Após o hiato de nove anos entre a primeira e a segunda fase do namoro, os dois voltam a corresponder-se por causa da fotografia que Pessoa lhe envia, tirada em 1929 num estabelecimento de bebidas de Lisboa, com um trocadilho na dedicatória: “Em flagrante delitro”.

MEMÓRIAS ÍNTIMAS

Tanto as cartas de Fernando Pessoa como as de Ofélia pertencem, neste momento, a colecionadores.

Por isso, a organizadora teve acesso a fotocópias dos originais, postas à sua disposição pelos herdeiros. As duas cartas inéditas incluídas na edição portuguesa, escritas por Ofélia em julho de 1920, faziam parte do conjunto.

“O motivo da não inclusão na primeira edição foi por vontade dos familiares de Ofélia. Creio que queriam preservar sua memória e evitar que a vida íntima da jovem fosse exposta. Interpretaram talvez erradamente as duas cartas e, por isso, preferiram que não fossem publicadas”, explica a pesquisadora.

Em uma dessas cartas, Ofélia diz a Fernando que lhe escreve da cama, de onde não se consegue levantar por estar doente.

Fala de uma “misteriosa doença”, e percebe-se que estará relacionada com seu período menstrual, tema ainda tabu na época. No final, ela pede que Pessoa rasgue a carta, coisa que ele nunca fez.

Passaram-se cerca de 15 anos, e a sobrinha-neta de Ofélia, com quem Manuela Parreira da Silva diz ter mantido uma excelente troca de ideias, achou que não fazia mais sentido não torná-las de conhecimento público.

“Afinal, elas tratam apenas de assuntos femininos, que o pudor de uma jovem de 20 anos impedia, naquela época, de abordar mais abertamente”, explica a pesquisadora portuguesa.

Lidas sem confronto com as da sua destinatária, as cartas de Pessoa pareceram a muita gente “meros exercícios literários”, o que explicará a ideia que se perpetuou de que o namoro entre os dois seria apenas platônico.

“Quando Fernando Pessoa escreve, a certa altura, que lembra com saudades da época em que ‘caçava pombos’, alguns leitores apressados imaginaram que se tratava de uma desconversa do autor, de uma brincadeira para provocar a sua namorada”, diz Parreira da Silva.

“Mas, ao conhecer-se a resposta de Ofélia, percebeu-se que, pelo menos, ela entrava na brincadeira, manifestando uma falsa perplexidade.”

A leitura cruzada de outras cartas confirma que Pessoa se referia aos seios da jovem, os “pombinhos” sobre os quais, em outro momento, diz deitar a sua cabeça.

Em outra carta, Pessoa escreve: “Queria ir, ao mesmo tempo”, à Índia e a Pombal.

“Se Pombal se torna agora uma metáfora transparente, a Índia permanece velada, sugerindo, obviamente, um outro ‘lugar’ menos acessível”, explica a investigadora.

Na correspondência do casal há outras referências, sobretudo de Ofélia, aos beijos e carícias trocados pelos dois e ao sentimento de júbilo e, às vezes, de saudade que essa recordação lhe provoca.

“Não creio, no entanto, que tenha havido entre os dois uma intimidade maior do que essa”, conclui.

“Enfim, foi, sem sombra de dúvida, um namoro comum, que irrita os que imaginavam que Fernando Pessoa tenha sido um homem incapaz de se relacionar com uma mulher. A verdade é que essas cartas reencontram um Fernando Pessoa como um homem muito normal, dentro da extrema anormalidade de ser um grande poeta”, acredita a especialista.

Fernando Pessoa deixou os sentimentos em segundo plano

 

FSP

 

ULTIMATUM… nada mais atual

 

 

ULTIMATUM

Mandato de despejo aos mandarins do mundo

Fora tu,
reles
esnobe
plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade
e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
Ultimatum a todos eles
E a todos que sejam como eles
Todos!

Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
Que nem te queria descobrir

Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo
Vós, anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
Para quererem deixar de trabalhar
Sim, todos vós que representais o mundo
Homens altos
Passai por baixo do meu desprezo
Passai aristocratas de tanga de ouro
Passai Frouxos
Passai radicais do pouco
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa
Descascar batatas simbólicas

Fechem-me tudo isso a chave
E deitem a chave fora
Sufoco de ter só isso a minha volta
Deixem-me respirar
Abram todas as janelas
Abram mais janelas
Do que todas as janelas que há no mundo

Nenhuma idéia grande
Nenhuma corrente política
Que soe a uma idéia grão
E o mundo quer a inteligência nova
A sensibilidade nova

O mundo tem sede de que se crie
Porque aí está apodrecer a vida
Quando muito é estrume para o futuro
O que aí está não pode durar
Porque não é nada

Eu da raça dos navegadores
Afirmo que não pode durar
Eu da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um novo mundo

Proclamo isso bem alto
Braços erguidos
Fitando o Atlântico

E saudando abstratamente o infinito.

Álvaro de Campos – 1917

Fernando Pessoa homossexual, vaidoso e pouco criativo …lançado em Portugal

photo Hoje

O Fernando Pessoa homossexual, vaidoso e pouco criativo de José Paulo Cavalcanti Filho

Apesar de ser um dos grandes nomes da literatura mundial, a verdade é que são raras as biografias sobre Fernando Pessoa, podendo ser contadas com os cinco dedos de uma mão.

Fernando Pessoa: uma (Quase) Biografia (Record, 736 páginas, 79,90 reais), livro em que o advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti trata sem cerimônias de um clássico das letras portuguesas. Fernando Pessoa (1888-1935) é mostrado como um beberrão, um homossexual enrustido e, ainda, um escritor de rala criatividade. “Pessoa não tinha imaginação”, diz Cavalcanti, que descobriu 55 novos heterônimos do poeta – além dos 72 já catalogados pela especialista Teresa Rita Lopes – entre conhecidos seus e em jornais e textos escritos por ele, entre outras fontes. “Boa parte deles vêm de gente que existia mesmo, de admirações literárias ou lugares caros a Pessoa”, conta.

José Paulo Cavalcanti Filho foi portanto à procura do Homem em vez de «A OBRA». E o que encontrou foi realmente algo surpreendente, como a natureza homossexual do poeta, além da extrema vaidade e da pouca imaginação. Está tudo em «Fernando Pessoa – Uma quase-autobiografia», agora editada em Portugal pela Porto Editora, «que está mais completa que a edição brasileira», reconhece o autor, amante do diálogo e… do charuto.

http://diariodigital.sapo.pt

Leia trecho da entrevista a revista Veja:

 

O senhor descobriu que Fernando Pessoa tinha um total de 127 heterônimos. Em que fontes o poeta se pautou para criar seus outros “eus”?
De fato, até bem pouco, o número consensual de heterônimos era aquele dado por Teresa Rita Lopes: 72. No livro, mostro que o poeta usou, pela vida, 202 nomes, dos quais 127 seriam heterônimos, que agora são descritos com suas biografias possíveis. Apesar do número enorme de heterônimos, no final da vida, Pessoa decidiu abandonar todos para reunir o melhor do que escreveu num livro de 300, 400 páginas em seu próprio nome. Apenas lhe faltou tempo, para isso, pois logo lhe veio a “mater dolorosa da angústia dos oprimidos” (morte).

Como foram descobertos os novos heterônimos?
O livro começou em um momento mágico, quando percebi que Pessoa não tinha imaginação. Diferentemente do que se pensa, ele preferia usar o que tinha à mão – sua vida, amigos, admirações literárias, mitologia. Fui descobrindo os heterônimos à medida que apareciam. E iam aparecendo por toda parte, em livros de sua biblioteca, nos pequenos jornais que escrevia, nos textos que analisei. Estavam ali, às ordens, esperando, até que alguma mão os resgatasse desse limbo. É como quem pela vida escreve um diário secreto, nem tão secreto assim, que, depois de ter a chave, tudo fica claro. Em Tabacaria, por exemplo, ele diz, “Se eu casasse com a filha da minha lavadeira, talvez fosse feliz”. Uma frase como essa bem poderia ser metáfora, claro. Mas, conhecendo seu estilo, já sabia que havia uma lavadeira, havia uma filha dessa lavadeira, e terá havido um romance entre eles. Quando fala em um Esteves conversando com o dono da Tabacaria, o “Esteves sem metafísica”, claro que havia mesmo um Esteves. Era um vizinho da família, que a pedido dela, por ironia, se dirigiu à Conservatória do Registro Civil para declarar o óbito do poeta.

Para entender melhor a questão: como se define um heterônimo?
Em um primeiro momento, heterônimos são, ou deveriam ser, aqueles que escrevem com estilo autônomo em relação ao do autor real. Não só isso. E que escreveriam sobre temas específicos, diferentes dos usualmente tratados pelo autor. Aos poucos, entre especialistas de Pessoa, esse conceito foi se alargando, até chegar ao ponto atual, em que Pessoa escreve como se fosse outro. Claro que sem demonstrar, nem de longe, a autonomia que tinha aquela primeira classificação. Mantido o primeiro critério, bem visto, heterônimos seriam apenas três – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Se fôssemos estender um pouco mais, para considerar também aqueles que deixaram obra vasta, teríamos que incorporar mais cinco, a saber: Search, Mora, Baldaya, Teive e Bernardo Soares (admitindo que seja este o mesmo que Vicente Guedes, com o qual seriam então mais seis). No total, portanto, oito heterônimos (ou nove, como já visto). Mas a tese consensual é de que todos os nomes usados por Pessoa – para assinar traduções, prefácios, charadas, serviços diversos – constituem heterônimos. Inclusive o próprio Pessoa.

Então, os heterônimos não são todos poetas?
A maioria dos heterônimos assina textos, mas para outros foi destinada alguma função específica: escrever livros que não de poesia, entre eles um de luta livre (que seria a capoeira de Angola), de sucesso em Bahia e arredores, traduzir obras de ocultismo, por exemplo, ou prefaciar obras – do próprio Pessoa e de terceiros. Alguns foram companheiros de viagem, que de certa maneira viveram com ele. Outros assinaram livros de sua estante. Ou fizeram charadas em jornais. É claro que, no fundo, era sempre Pessoa escrevendo. Álvaro de Campos, por exemplo, só escreveu poemas homossexuais até fins de 1919, quando Pessoa conheceu Ophelia Queiroz (que namorou o poeta em dois momentos). E, no fim da vida, vemos Campos casado, ao lado de uma esposa.

Que espaço é dedicado à sexualidade do poeta?
No livro, o tema ocupa um capítulo inteiro. Em resumo, Pessoa tinha uma natureza homossexual, mas nunca foi além disso (nunca concretizou sua opção). Não há um depoimento de amigo, um texto, uma foto em posição suspeita.

Pessoa bebia bastante. Com que evidência o senhor diz que ele não morreu de cirrose?
Sim, ele bebia muito, muito além do que era razoável. A arte de beber, que no livro ganha todo um capítulo, lhe foi ensinada pelo tio Henrique Rosa. Quanto à morte, convidei um grupo grande de professores doutores para discutir as causas de sua morte. E restou consensual não ter sido por cirrose. Apesar de Pessoa ter bebido sempre além da conta, não foi cirrose, com certeza. Ele não apresentou nenhum dos sintomas clássicos das fases finais da doença – icterícia, ascite, distúrbios neuropsíquicos, hemorragia digestiva alta, coma –, sem contar que cirrose não dá a dor abdominal aguda que ele teve, às vésperas da morte. A causa mortis provável terá sido pancreatite. O livro dedica um capítulo aos estudos que levam a essa conclusão.

Que outras revelações o livro traz, e de que modo essas descobertas mudam a visão que se tem de Pessoa?
No livro, busco saber quem é o homem por trás da obra. Sua obra já está bem estudada, faltava saber como era ele. E, pouco a pouco, das sombras, emerge um homem vaidoso e discreto. O livro fala de seus hábitos – suas rotinas e manias, como o sentar sempre sobre as mãos, a cabeça levemente pendida para a esquerda, o falar baixo – e também de um livro de poesias que escreveu e vendeu a um russo, que o publicou. Fala também do último encontro de Ophelia Queiroz, implausível amor, com seu corpo, no Hospital São Luís dos Franceses. Um estudo mais amplo sobre sua sexualidade, suas angústias, a arte de beber.

Suas páginas já irritaram alguém?
Ainda não. Mas penso que será normal que apareça mesmo algum Cristo. Mas eu contratei um historiador e um jornalista, em Portugal, para revisar cada página. A geografia de Lisboa, a história de Portugal, nomes, tudo foi conferido. Há dois tipos de pessoas, os felizes e os desesperados. Os felizes, homens sensatos que são, marcam data para acabar e acabam suas tarefas. E seus livros. Os desesperados, enquanto sentem que pode ficar melhor, não terminam nunca. Infelizmente, para mim, pertenço a este segundo grupo. Há suor e sangue, no livro, que escrevi em pelo menos quatro horas por dia, durante quase oito anos, indo em média quatro vezes por ano a Lisboa, conversando com todo mundo, inclusive anônimos que o conheceram. Escrevi um livro que ainda não existia, mas que eu queria ler. Sem nenhuma ideia de que seja aquele que os outros quererão mesmo ler. Espero que sim. Ardentemente.

Maria Carolina Maia/Veja

Jô interpreta Pessoa em Portugal

Com pré-estreia para convidados, Jô Soares apresentou pela primeira vez ao público português “Remix em Pessoa”, espetáculo que estreiou na sexta-feira (29), às 21h30, no Teatro Villaret, em Lisboa, dirigido por Bete Coelho e com música de Billy Forghieri.

Imprensa, celebridades do meio artístico português e autoridades brasileiras estiveram no teatro para conferir de perto o espetáculo, um monólogo lançado em CD no Brasil em 2007 e apresentado em diversos teatros de São Paulo e Rio de Janeiro, com aclamação do público e da crítica.

Entre os convidados brasileiros, estiveram presentes o presidente da TAP, Fernando Pinto, o diretor da TV Globo Europa, Ricardo Pereira, o qual declarou que desde a gravação do CD “Remix em Pessoa”, em 2007, mesma época da inauguração da Globo em Portugal, havia falado ao humorista que o espetáculo deveria ser exibido em Lisboa.

O embaixador do Brasil em Portugal, Celso Vieira e Souza, que disse ser um prazer receber Jô Soares em Lisboa: “É uma presença sempre boa, simpática, de um ator tão conhecido como Jô Soares e dizendo textos de Fernando Pessoa, que é extraordinário, poeta português, grande nome do modernismo.  Já ouvi de várias fontes que Fernando Pessoa foi uma redescoberta no Brasil. Claro que ele foi um grande poeta cultuado e respeitado em Portugal, mas quem deu ao Fernando Pessoa o lugar de realce modernamente na língua portuguesa foi o Brasil. Sobretudo por meio de Cleonice Berardinelli”, disse Souza.

Jô Soares subiu ao palco vestido como Pessoa e, com seu brilho de um bom comunicador, deu início ao espetáculo apresentando aos seus ilustres convidados o poema Sou Eu. Uma plateia formada por aproximadamente 400 pessoas ouvia em silêncio Jô interpretando, com sotaque luso caricato, o imortal poeta português Fernando Pessoa. De Álvaro de Campos, Jô disse ser o heterônimo que mostra com mais contundência uma versão de humor cáustico e irônico que ele próprio tem do mundo.

O repertório do espetáculo foi composto, grande maioria, de poemas gravados no CD, com exceção de Lisboa com Suas Casas e Se Eu Morrer Novo, de Alberto Caeiro, outro dos heterônimos de Pessoa, com o qual Jô presenteou os convidados, regressando ao palco após muitos aplausos. Para interpretar o poema Ao Volante do Chevrolet, o artista usou as costas de uma cadeira, simulando que estava dirigindo um carro.

Jô falou com o site da Brasileiros sobre o prazer de estar realizando um sonho, apresentando “Remix em Pessoa” num teatro construído por seu grande e saudoso amigo Raul Solnado.

“Remix em Pessoa” fica em cartaz em Lisboa até dia 7 de fevereiro.

Crônica do Cony: De autores e frases

Uma frase atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do regime nazista, foi repetida por Celso Amorim numa reunião internacional e provocou constrangimentos: “Mentir, mentir, que sempre fica alguma coisa”.

É possível que Goebbels a tenha dito. Contudo, a frase não é original. Foi pronunciada bem antes do advento do nazismo por Voltaire, um dos totens do Iluminismo, e tinha como alvo a Igreja Católica, que ele chamava de infame: “Écrasez l’ìnfâme”. Voltaire recomendava: “Caluniai, caluniai que ficará alguma coisa”.
É possível, também, que a frase não seja de Voltaire, mas atribuída a ele por historiadores católicos. Periodicamente, surgem coisas assim, e o leitor acima citado lembra o caso de De Gaulle, que nunca disse que o Brasil não era um país sério. Mas a frase ficou sendo dele.
Já comentei a mania de se atribuir o “Navegar é preciso” a Fernando Pessoa. O pessoal mais recente prefere citar Caetano Veloso ou Ulysses Guimarães como autores do conceito que, por sinal, é lema da Liga Hanseática. Li a frase gravada numa ponte de pedra que dá acesso a Lübeck, cidade em que nasceu Thomas Mann.

Qualquer almanaque informa que a frase foi pronunciada por Pompeu. Dividindo o poder com César, que andava pelas Gálias, Pompeu enfrentou uma crise no abastecimento em Roma. Pompeu comandou uma esquadra para buscar alimentos no norte da África. Com os navios abarrotados, os tripulantes se amotinaram, temendo enfrentar o mau tempo no Mediterrâneo. Pompeu os incentivou: navegar é preciso.

CARLOS HEITOR CONY/FSP

PS: O poeta pretendia dizer: navegar com precisão. O navegador faz uso de instrumentos precisos para se localizar e dar rumo a seu curso. O poeta, ao contrário, traz em seu discurso a possibilidade metafórica. Se o navegador é prisioneiro dos instrumentos, ou seja, só enxerga seu destino a partir destes, o poeta não se preocupa em ver qualquer discurso, ou melhor, aviar um desejo.

Ronaldo Zenha

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