SAÚDE: UTI é para quem tem salvação


Bela entrevista que recomendo a leitura…
Entrevista com o médico Ricardo Necchi

1358217287[1]MINUANO SAÚDE – Quem tem de ir para a UTI?
RICARDO NECCHI – Vou responder assim: quem deveria ir para a UTI. Pacientes graves que se beneficiam de cuidados intensivos. Vou trocar o termo médico para o popular. Pessoas que estão gravemente doentes, mas que podem se salvar. Este é o grande equívoco da sociedade, das pessoas que pressionam os médicos, as enfermeiras e assistentes, achando que fazem o melhor para os seus familiares e estão fazendo uma coisa completamente errada.

MS – E quando internar na UTI é errado?
NECCHI – Muitas vezes são pacientes que não vão se beneficiar de tratamento intensivo, são pacientes em fase final de câncer, estão com vários AVCs (acidente vascular cerebral) e acamados há muito tempo… Mas a família tem muita dificuldade em lidar com a morte. Isso é uma coisa muito séria… A humanização das UTIs é hoje uma das coisas mais discutidas. Nos congressos, o que mais se discute é ética e humanização dentro da UTI. Até onde a gente pode investir nos esforços com um paciente.

MS – Mas é difícil lidar com isso. As pessoas acreditam que ali vão estar bem.
NECCHI – Eu digo por experiência. Tenho pessoas conhecidas, de ótima relação, que até ficaram de mal comigo, porque eu disse: “olha, tua mãe (ou tua tia) não tem porque ficar no tratamento intensivo, ela tem que ficar com a família, ela não vai sobreviver. São pessoas que ficaram chocadas comigo. Existe um trabalho publicado de uma médica em Santa Catarina no qual ela afirma – é algo muito certo – que, antigamente, a criança assistia ao vovô morrer dentro de casa. Então, a morte era uma coisa mais próxima das pessoas. Depois, nós passamos para um segundo momento: as pessoas acham um absurdo morrer dentro de casa. A minha mãe morreu em casa, de câncer. Morreu cercada pela família. Hoje isso não existe.
As pessoas ligam para o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e trazem ao Pronto-Socorro os pacientes, infelizmente, morrendo. E perguntam assim para a gente: “vai mandar para morrer em casa?” Como se fosse uma coisa absurda.
Agora, estamos chegando a um terceiro momento. Os familiares não querem acompanhar a morte de seu familiar nem dentro do quarto do hospital. No futuro, nós vamos ter que fazer uma ala dentro do hospital em que as pessoas morrerão sozinhas, porque a família não quer mais acompanhar a morte de seu familiar.
Ela se sente frustrada de não poder fazer nada. Então, qual é o pensamento? “Vamos botar lá na UTI, vamos fazer tudo para ele se salvar”.

MS – Isso é uma espécie de alívio de consciência.
NECCHI – Não. Isso aí é um grande equívoco. Porque eu assisto à morte dessas pessoas na solidão. Longe dos seus familiares. A gente tenta, de alguma forma, conforta-las. Mas elas se sentem abandonadas lá dentro e isso apressa a morte. A melancolia da solidão da família é muito triste. E tem outro fato grave. Alguns colocam o familiar na UTI e depois não querem tirar. É uma “luta” para tirar. Mesmo que o médico diga “está bem, vai para um quarto do hospital”. Chegam ao absurdo de dizer: “ah, mas eu trabalho todo dia, quem vai ficar com ela?”
MS – Como é esse processo de humanização numa Unidade de Tratamento Intensivo?
NECCHI – É convencer a família de que o melhor tratamento é a presença ao lado. Sempre que isso for possível, é o melhor tratamento. Mas o que acham que é o melhor? Colocar dentro de uma UTI e ver o doente 15 minutos por dia?

MS – E isso não passa por uma conscientização? Uma equipe multidisciplinar que faça esse trabalho ou que vá além das paredes de um hospital?
NECCHI – É o que nós tentamos fazer. Temos uma equipe grande aqui. Com psicóloga, enfermeiras, técnicos, médicos. A gente tenta, explica o problema… e enfrenta a resistência enorme de levar para o quarto.

MS – Dentro do processo de humanização…
NECCHI – Voltando ao que a gente procura fazer dentro da unidade. Em primeiro lugar, tratamos todos os pacientes pelo nome. Isso é muito importante. O paciente não pode perder a identidade. E ele tem que ter noção se é dia, se é noite… De alguma forma precisa estar conectado com a realidade. Se perder essa conexão fica muito mais difícil de voltar. Incentivar a família a participar mais do tratamento e, logo que seja possível, tirar o paciente dali, para ficar mais tempo ao lado do familiar.

MS – Um doente que chega à UTI, ele encontra ali – na equipe – um médico especialista em terapia intensiva. Como é realizado o trabalho desse médico que se depara com tantos tipos de enfermidades e tão diferentes muitas vezes?
NECCHI – A especialidade de terapia intensiva é nova. Começou nos anos 80, quando foi transformada em especialidade. É oriunda das salas de recuperação dos blocos cirúrgicos. Os primeiros intensivistas foram os anestesistas. Eles observaram que alguns doentes graves que recebiam maiores cuidados sobreviviam mais que aqueles que, após a operação, iam para o quarto dormir. Assim foram criadas formas de monitorização… Esse foi o princípio da terapia intensiva. Hoje é uma especialidade médica muito ampla. O intensivista é um médico que arbitra o melhor para aquele paciente envolvendo vários profissionais especialistas. É um paciente que tem um cardiologista, um cirurgião,um “traumato”, um “neuro”… todos juntos tratando o mesmo caso. Então, por exemplo, o cirurgião quer aplicar algo que vai piorar os rins, aí o intensivista explica que “não é possível, porque pode ocorrer isso e tal”. O intensivista é o “cara” que tem a visão global do doente.

MS – E têm muitos momentos de tensão dado à gravidade de algumas patologias?

NECCHI – A terapia intensiva tem uma fisiopatologia de doenças drásticas que, embora seja completamente diferente, tudo desemboca numa mesma coisa, que se chama resposta inflamatória sistêmica, que é uma doença. Seja o politraumatizado ou o cara que está com uma infecção, ele desenvolve essa doença. Por algum motivo o doente começa a se defender de uma agressão. Aí muda completamente o metabolismo, as defesas, tudo. São produzidas novas proteínas ou, para combater a bactéria, ou fazer a cicatrização dos tecidos machucados.

MS – Trata-se de uma defesa desesperada do corpo para combater a agressão?

NECCHI – Que vai curar. É um mecanismo de cura. O que tu fazes dentro de uma UTI? Dá suporte hemodinâmico… suporte ventilatório, que é dar o oxigênio suficiente para o sangue, para que vá em todas as células do corpo para poder restabelecer. Dá suporte nutricional. Tem que dar comida para o doente para que possa fazer todo esse metabolismo. Porque um doente em doença grave com está, que sofre um impacto muito grave, demanda uma necessidade nutricional muito maior que outros doentes. Ele precisa de proteínas para se defender. Basicamente, a terapia intensiva é baseada nesse tripé: suporte hemodinâmico, nutricional e respiratório. É preciso dar tempo para o doente produzir essa resposta inflamatória sistêmica e se curar. Tempo é o que se dá. A gente utiliza métodos artificiais para manter o doente vivo para ele poder se curar.

MS – Como são os sentimentos dentro da unidade?

NECCHI – Muito “intensivos”, eles também o são. Mas tem coisas impagáveis. Faz muitos anos que trabalho nisso e sempre me emociono. Talvez o fato mais emocionante que me aconteceu é o de uma menina de Dom Pedrito. Ela sofreu um acidente de moto. Esteve um mês na UTI, com ventilação mecânica, entre a vida e a morte. Tinha 16 anos. Felizmente sobreviveu. E ficou muito bem. Às vezes, vejo-a quando vem a Bagé, vem me visitar. Essa menina me ligou na noite de Natal. Meia-noite. Ligou para agradecer por eu ter dado a ela a chance de viver de novo. Eu fiquei muito emocionado. Talvez seja o que mais me emocionou nos meus vários anos de profissão. E como este, que é um caso emblemático que conto, têm vários outros, de pessoas que me param na rua, que chegam na UTI para visitar, não a mim apenas, mas a todos, as enfermeiras… todos. São muitos pacientes que voltam para visitar. Isso é emocionante, gratificante.

A grande maioria dos pacientes internados sobrevive e dá alta

Fonte: http://www.jornalminuano.com.br

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