Arquivo do dia: abril 3, 2010

Nina Simone: raiva como combustível

Nina Simone achava que era a reencarnação de uma princesa egípcia. Seus fãs não precisavam dessa informação para reverenciar a cantora – tampouco a escritora Nadine Cohodas, que, mesmo assim, batizou sua biografia, recém-lançada nos EUA e ainda sem previsão de chegar ao Brasil, de Princess Noire – The Tumultous Reign of Nina Simone (Pantheon Books, 464 págs., US$ 30).

As credenciais da biógrafa garantem a seriedade da pesquisa. Antes de Nina Simone, ela escreveu a biografia de outra diva do jazz, Dinah Washington (Queen: The Life and Music of Dinah Washington), sendo também autora da história de uma lendária gravadora de blues, a Chess Records. Em Princess Noire, Nadine Cohodas tenta ser discreta ao acompanhar a evolução da bipolaridade da grande cantora, que morreu, em abril de 2003, aos 70 anos, de um câncer no pulmão, diagnosticado dois meses antes.

Eunice Waymon (seu nome verdadeiro) teve uma vida nada discreta. Há, portanto, uma dissonância que perturba a intenção da biógrafa, a de dissecar – sem os instrumentos corretos de um psicanalista – essa personalidade perturbada, algo esquizofrênica, megalomaníaca e dada a acessos de agressividade.

Criada durante a Grande Depressão em Tryon, na Carolina do Norte, numa família de oito irmãos e pai pastor metodista, a idiossincrasia estilística de Nina Simone rivalizava com a pessoal. Quando criança, foi aluna de uma professora inglesa de piano, Muriel Mazzanovich, que a obrigava a tocar Bach sem parar – a primeira hora de aula era sempre dedicada ao compositor alemão. Miss Mazy, como Nina a chamava, era mais que uma professora de música. Seria uma espécie de Maggie Smith no filme A Primavera de uma Solteirona (The Prime of Miss Brodie), uma professora que ensinava às alunas tudo o que seus pais jamais ousariam aprender. Assim, Eunice Waymon adotou-a como sua “mãe branca”. Como seus pais não podiam pagar pelas aulas, foi criado em Tryon uma espécie de fundo para custear seus estudos de piano. Miss Mazy, então, preparou a aluna para seu primeiro recital, em 1944, aos 11 anos, no auditório da Biblioteca Lanier, de Tryon. Foi o estopim do trauma que a acompanhou para o resto da vida.

Os pais vestiram-se como se fossem para a igreja. Chegaram e sentaram-se na primeira fileira. Ao entrar no palco, a futura Nina, furiosa, observou que eles haviam sido deslocados para o fundo da sala. Encarou a plateia e pediu aos organizadores que instalassem os pais num lugar onde pudesse vê-los. Constrangidos, os anfitriões cederam ao pedido, contrariando as leis locais, que garantiam aos brancos a escolha dos melhores lugares. Anos mais tarde, os que assistiram às frequentes provocações da cantora ao público durante os concertos, como a de interpretar seu hino de guerra Mississippi Goddam, passaram pelo mesmo teste de resistência aos impropérios lançados do palco aos brancos. Estava lançada a semente da bipolaridade de Nina, uma intérprete de reconhecida sensibilidade, capaz de emocionar um canibal, e que chegava ao extremo de agredir seu público, dizendo que não precisava do amor dos fãs, mas de dinheiro para viver.

De fato, como conta sua biógrafa, ela foi explorada por agentes, empresários, gravadoras. Vingava-se na hora de pagar as contas. Deu calote em locadores londrinos, numa clínica suíça, no American Express e acumulou uma dívida com o Imposto de Renda americano que chegaria, nos dias de hoje, a quase US$ 500 mil, o que explica seu exílio voluntário em Barbados e na França, onde morreu. Nina gostava de vestir roupas de grife e tomar a champanhe Cristal Louis Roederer. E isso custa muito, muito caro (uma garrafa de Cristal de uma boa safra não sai por menos de US$ 500). Ainda assim, apresentou-se regularmente nos EUA nos anos 1970 e 1980, graças a um acordo com o Leão americano e à interferência de advogados, obrigados a representá-la como Dra. Simone – ela insistia na “doutora”, por ter estudado música erudita na Julliard School, frustração maior, uma vez que não conseguiu se tornar uma pianista clássica. E, mais uma vez, ela culpou os brancos por isso, alegando ter sido rejeitada no exame de admissão no Curtis Institute of Music, aos 18 anos, por ser negra.

O sentimento de injustiça pessoal, vítima do racismo dos brancos, perseguiu a militante Nina Simone a vida toda, mesmo quando já era uma diva, adorada por fãs – brancos e negros -, dispostos a pagar uma fortuna para vê-la no palco e cantar apenas seis músicas – como no seu último concerto no Carnegie Hall, em 2001, dentro do Festival JVC. O organizador George Wein pagou a ela um cachê de US$ 85 mil, cobrando US$ 100 por ingresso. Ninguém reclamou. “Ela era adorada como uma deusa e havia se transformado num ícone”, comenta o empresário. Não foi a mesma opinião do crítico Gene Santoro, do Daily News. Para ele, aquela havia sido uma noite em que Wein “tentou erguer Roma de suas ruínas”. Afinal, no fim da carreira, a voz não era mais a mesma e Nina dava sinais de distúrbio de personalidade, tropeçando nos fios do microfone, falando com a voz empastada dos alcoólicos e deixando a alça do vestido cair como uma decadente diva de melodrama hollywoodiano. mais revolta sentia, mais talento surgia de seu piano


As várias faces da diva

RACISMO
“Toda a minha vida desejei exprimir meu sentimento de prisioneira, esse silêncio atroz que transforma todos os negros em encarcerados.”

VERDADE
“Seja o que for que alguém possa concluir sobre minha música, seja o que for que alguém sinta por ela, saiba que a perturbação que ela provoca é também parte da perturbação do ouvinte. Tudo o que você ouve nessa música é absolutamente verdadeiro.”

LIBERDADE
“Vou dizer a você o que significa liberdade para mim. Liberdade é realmente não sentir medo de espécie alguma. Todos deveriam ser livres e, se não o somos, é porque somos assassinos.”

AMÉRICA
“Não estou no meu país. Nasci aqui, nos EUA, mas este não é o meu lar. Sinto estar à beira de ser crucificada aqui, só não sei dizer por quem.”

MILITÂNCIA
“O que eu fazia não era música clássica, nem popular, mas música em defesa dos direitos civis. Todos os meus amigos foram exilados ou simplesmente assassinados. Fiquei meio perdida, amarga, paranoica, imaginando que podia ser morta a qualquer momento.”

SEMELHANTES
“Dizem que eu e Billie Holiday somos parecidas. Suponho que seja porque tivemos vidas idênticas, sempre rejeitadas.”

Estadão

Playboy: Cacau a delicia da páscoa

Começa a chegar às bancas, a partir de hoje, a Playboy com a Cacau, do BBB 10. Ontem, ao lado de Angélica (a Morango), ambas admitiram, pela primeira vez, um ensaio juntas. Se esta edição do programa bateu recorde de votos, aposto que as duas iriam liderar o ranking de vendas da revista.

Apartamento da filha de Lula é invadido

O apartamento da filha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lurian Silva, foi invadido na noite de sexta-feira, por volta das 20h30min. Ela estava em casa, sozinha, fazendo exercícios, e não percebeu o arrombamento. Os ladrões levaram um notebook e alguns objetos pessoais. Os filhos de 5 e 12 anos estão em São Paulo.

Logo depois de perceber a invasão, Lurian acionou a sua equipe de segurança. Cerca de 10 agentes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) são os responsáveis pela segurança da filha e dos netos do presidente em Florianópolis.

O apartamento de Lurian fica no Bairro Itaguaçu, região Continental de Florianópolis. Neste sábado à tarde, técnicos do Instituto Geral de Perícia (IGP) da Polícia Civil estiveram no apartamento para colher vestígios. A polícia não divulga nenhuma informação sobre o caso.

Visor

Ex-BBB estreia como atriz na França

O “BBB 10” acabou de fato, mas ainda ecoa com ex-participantes, agora na crista da onda e assediados o tempo todo. E com os “ex-ex-ex”, que se aproveitam da grife do programa para amealhar uma aparição aqui outra ali. Há aqueles, porém, que mesmo carregando no currículo a passagem pelo reality show, preferem a discrição e o foco no trabalho. Ainda que seja um trabalho na TV. Caso da quase vencedora do “BBB 8”, Gyselle Soares. Tentando uma vaguinha numa novela há tempos, a moça conseguiu. Mas, ironia das ironias, a estreia na profissão de atriz de televisão será na França, onde fará o seriado “Camping Paradis”, produzida pela TF1, que já está em sua terceira temporada.— Por mais que esteja estudando, que já tenha feito cursos e cinema aqui no Brasil, sofro muito preconceito por ser ex-BBB. Gente, não quero virar uma estrela da noite para o dia! Só quero a oportunidade de mostrar que estou preparada para trabalhar no que escolhi antes mesmo de participar do programa — desabafa a moça, que, no entanto, não se arrepende de ter participado do confinamento: — Faria de novo, com o maior prazer.

Na próxima quinta-feira, Gyselle parte de visual novo — cabelos mais curtos e escuros — para Paris e logo depois segue para Marseille, na Riviera Francesa, onde ficará um mês gravando o seriado. Na história, ela será Joana, uma estudante brasileira fina e elegante que conhece Tom Delormes, o protagonista interpretado por Laurent Ournac, e balança o coração do moço:

>— Já sei também que volto em setembro para fazer mais uma temporada. Falar francês para mim é fácil, porque morei muito tempo em Paris. Quero ver agora como vai ser interpretar em outra língua. Estou ansiosa, mas também esperançosa de que agora as pessoas me vejam com outros olhos.

Extra

Governo desiste de criar o ‘Bolsa Celular’

O ministro das Comunicações disse na terça-feira que desistiu de apresentar a proposta de criação do “Bolsa Celular” e deixou a responsabilidade da sugestão para as empresas. O ministro disse ter sido mal interpretado e que não será o governo a bancar o programa.

O “Bolsa Celular” foi pensado para beneficiar 11 milhões de pessoas que participam do programa Bolsa-Família. Os beneficiados receberiam celular de graça e um bônus mensal de R$ 7.

“Estou recolhendo minhas ferramentas, não quero mexer mais com isso. Porque não entenderam o que eu falei. Não é dinheiro público, é dinheiro das empresas”, afirmou Costa após participar de cerimônia de liberação de canais de TV digital para emissoras de Aracaju (SE).

Costa havia previsto que o programa custaria R$ 2 bilhões, a serem investidos no período de dois anos. Esses recursos viriam da isenção da cobrança do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel). “O governo não vai gastar. O governo está se propondo a ouvir uma proposta das empresas”, afirmou.

As empresas de telefonia recolhem anualmente para o Fistel R$ 13 42 relativos a cada celular em funcionamento e mais R$ 26,83 na habilitação de cada novo telefone móvel. “O que as empresas querem saber é se é possível pensar em não cobrar a taxa anual do Fistel para esse telefone que não existe”, acrescentou

Morre o ator Buza Ferraz

O ator e diretor Buza Ferraz, de 59 anos, morreu na madrugada deste sábado, no Rio. Ele sofria de leucemia, havia sentido um mal-estar e fora para o Hospital Samaritano, em Botafogo. Durante o atendimento, teve três paradas cardíacas e não resistiu.

De acordo com a família do ator, sua morte não teve relação com a leucemia e a causa seria um edema no pulmão. Buza estava passando o feriado da Sexta Feira Santa em Terezópolis quando passou mal, dirigindo-se em seguida para o hospital.

Segundo o irmão do ator, Antônio Paulo Ferraz, o último papel de Buza na TV Globo foi na novela “Páginas da vida”, de Manoel Carlos, na qual interpretava o advogado Ivan.

Sua estreia na televisão foi na primeira versão da novela “Selva de pedra”, em 1972. Buza também participou de folhetins como “O rebu” (1974), “Brilhante” (1981), “Pedra sobre pedra” (1992) e “Despedida de solteiro” (1992). No cinema, Buza dirigiu, com Luiz Carlos Lacerda, o filme “For all – O trampolim da vitória”, em 1997.

O enterro de Buza está previsto para este sábado, às 16h, no Cemitério São João Batista.

The Guritles a nova banda do Guri de Uruguaiana!

“Depois do estrondoso sucesso do Canto Alegretense na versão Thriller, agora o Guri de Uruguaiana, acompanhado do seu fiel escudeiro, o Licurgo, e dos amigos Rui Biriva e Daniel Torres, encaram o sucesso Help, dos Beatles, em um clipe “loco de especial””

A morte do Menino Azul

Li gostei, colei:

Menino Azul
Por que as crianças morrem? Por que morre uma criança azul? Que tocava violino, que tocava as pessoas, que sabia chorar um choro tão sentido, que convocava a solidariedade. Diego poderia ter se perdido de tantas formas em Parada de Lucas, mas se encontrava. O Rio o conheceu porque ele sabia chorar e tocou violino no dia da morte do seu professor. O Rio não entendeu esse final.

Saber chorar é arte. Fugir dos riscos que cercam meninos negros nas áreas ainda não pacificadas do Rio é arte. Vencer uma meningite aos quatro, estudar violino no meio de tiroteios é arte. Fazer-se amar é arte. Diego, o artista, fez chorar quem o conhecia e quem não o conhecia, quem falou com ele, e quem nunca o ouviu.

Ele era um dos meninos do AfroReggae e alguém pode dizer que existem tantos outros diegos sendo atendidos por algum programa do grupo cultural, ou por outros movimentos e organizações que usam a música para envolver as crianças cercadas de perigos, drogas, tiros e medos. Por que então um deles era tão valioso? Porque o que estimula quem busca as crianças para protegê-las é saber que cada uma tem seu valor, único, insubstituível.

Diego carismático, bom, sensível, com seus projetos de ser artista era único para quem o amou. Essa é a teimosia de quem trabalha com programas em áreas pobres do Rio ou de qualquer lugar do Brasil. As estatísticas vão dizer que só um percentual pode ser integrado ao programa, protegido, resgatado, valorizado, mas tem que se lutar por cada um.

As estatísticas dizem que ele entraria em breve no grupo de muito risco. Morreu aos 12, de leucemia aguda. Mas jovens de 15 a 24 anos têm um risco muito maior de integrar os números das mortes por causas externas, ou seja, violência. Se forem do sexo masculino, o risco cresce. Se forem negros, cresce ainda mais. Jovens negros têm risco 130% maior que jovens brancos de serem vítimas, mostrou o Mapa da Violência divulgado esta semana pelo Instituto Sangari, com base nos dados do Ministério da Saúde, segundo informou o “Estado de S. Paulo”. A ONG revela que esse dado piorou recentemente. Em 2002, a relação era de 1,7 jovem negro vitima da violência para cada jovem branco. Felizmente caiu a violência entre jovens brancos, mas, infelizmente, ela aumentou no caso dos jovens negros, e a relação subiu para 2,6 para 1, em 2007.

Outras estatísticas, que têm sido divulgadas por estudiosos, mostram que se os jovens forem do Rio, o risco cresce. Se morarem na periferia do Rio, o risco é ainda maior. É uma escalada estatística o perigo que cerca um jovem negro da periferia do Rio, como era Diego.

Mas Diego estava bem encaminhado pela família, pelos muitos amigos, pela música, porque fazia parte da família AfroReggae, porque tinha sonhos, por ter comovido tanto ao mostrar sua dor na morte do Evandro, seu professor. Ele provavelmente superaria os perigos que neste momento cercam tantos outros. Isso torna essa morte ainda mais dolorosa. Ele viraria um adulto como a criança $foi. Até onde iria com sua música, suas amizades, sua sensibilidade? Eram bons os prognósticos.

“Pequeno grande Diego”, definiu Júnior, coordenador do AfroReggae, em um dos e-mails que disparou pela sua imensa rede de amigos, em todas as áreas da cidade, todas as classes sociais. Nesse e-mail ele contava a notícia mais trágica: a de que não era uma apendicite, como se pensava inicialmente, mas um inimigo muito mais perigoso: a leucemia aguda. Júnior contou da “dor sem tamanho” que era vê-lo naquelas horas finais.

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, o definiu como um “parceiro”. Como pode o pequeno Diego ter ficado tão grande tão cedo? Ser considerado um parceiro pelo secretário de Segurança que está implantando as Unidades de Polícia Pacificadora; ser visto como um símbolo de um movimento que tem mais anos de vida do que ele pode ter; tudo é mistério em Diego do Violino.

Ele ficou conhecido, como todos se lembram, por uma foto que expressou a dor de todo o AfroReggae pelo assassinato do coordenador Evandro João da Silva. Quem acompanha o trabalho do grupo sabe que os meninos do violino eram um projeto especial para Evandro, mas a ONG sempre foi mais conhecida pelos grupos de percussão. Era uma experiência relativamente nova.

A violência estúpida que levou Evandro, e os detalhes que ficaram conhecidos depois da morte, como o comportamento desqualificado dos policiais que abordaram os assassinos, tudo foi sumindo lentamente das mentes. São tantos os absurdos que os mais recentes ocupam o lugar dos mais antigos, e a violência vai sendo banalizada. Mas o rosto bonito e triste de Diego, com aquela lágrima enorme e aquele violino do lado, ficou marcado na memória.

Esse é outro mistério de Diego: sua instantânea capacidade de tocar as pessoas e de se fazer entendido. Disse com seu rosto que a morte de Evandro doeu, convocou o sentimento de quem estivesse indiferente. Tão impressionante esse fenômeno que ele foi um dos três escolhidos para receber o Prêmio Faz Diferença, do GLOBO, na categoria Rio.

Diego ficou na memória como um lamento forte, um alerta, uma convocação geral, uma parada no tempo em que vamos perdendo aos poucos a sensibilidade. Porque ele tinha o lindo apelido de Azul, porque ele tocava um instrumento, porque ele não tinha nada que morrer agora com tanta coisa a viver ainda, porque seu choro em outubro foi tão sentido que só de ver a foto muita gente chorou com ele, porque ele era pequeno e grande esse espaço hoje é dele. Todo dele: o menino Azul.

Miriam Leitão Coluna no GLOBO

PS: Diego ficou conhecido ao emocionar as pessoas enquanto tocava, chorando, seu violino no enterro do coordenador do Afro Reggae Evandro João da Silva, morto em dezembro do ano passado no Centro.

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