Caso Isabella: a cobertura que você não viu


Li, gostei e colei a matéria de Fátima Souza, repórter policial, em colaboração ao Portal IMPRENSA:

Foram cinco dias de cobertura, feita por repórteres e produtores de todas as TVs, rádios, revistas, jornais e internet de São Paulo. Um verdadeiro batalhão, formado por mais de duzentas pessoas representando cerca de cinquenta veículos, pequenos, médios e grandes.
Os bastidores desta grande cobertura com certeza é uma grande matéria. Aconteceu de tudo, seja entre os profissionais ou em relação a dezenas de pessoas que, todos os dias, estavam de plantão na porta do Fórum de Santana, onde o casal Nardoni foi condenado (na sexta-feira, dia 26 de Março de 2010) pelo assassinato de Isabella, de cinco anos.
Entre os jornalistas e produtores, havia profissionais de gabarito, gente que tem anos de carreira. E havia também os iniciantes, conhecidos no jornalismo como “focas”.
No primeiro dia de julgamento, uma destas “focas”, uma garota de cerca de 23 anos, se aproximou do Rômulo, Assessor de Imprensa do Tribunal de Justiça e perguntou:
– “Por quê atrasou o início da sessão?
– “Porque o juiz recebeu uma série de petições”
– “Peti” o quê? O que é isso”, perguntou a “jornalista” de unhas pintadas de verde.
Pacientemente, Rômulo explicou o que era uma “petição”, perante os olhos incrédulos de profissionais de verdade. Ao final da explicação, a garota, sorrindo e saltintante, disse:
– Ah! (com cara de quem não entendeu nada)… Adorei esta palavra! Petição…
Era só o começo… Horas mais tarde ouvi uma outra foca perguntar o que era homicídio doloso.
Na quinta-feira, uma outra iniciante escreveu no site para quem trabalhava que uma das juradas (uma japonesa que fazia parte do Júri) “chorou” ao ouvir o depoimento de Ana Jatobá (réu, madrasta da menina)… Como nenhum outro jornalista tinha visto a tal jurada chorar (e todos foram cobrados por seus chefes porque não tinham dado a notícia, meu amigo Tony Chastinet, que trabalha comigo na TV Record, na sala de imprensa (a nós reservada no fórum) questionou aos presentes e ninguém mais mesmo tinha visto a jurada chorar. Então, ele foi direto à fonte e perguntou para a autora da notícia exclusiva: “só você viu ela chorar… tem certeza mesmo que ela derramou lágrimas?”
– “Quase certeza!”, respondeu, a iniciante.
E desde quando “quase” é chorar? Desde quando “quase” é notícia????????
“Barbaridade!”, diria minha velha e falecida avó.
Ainda na quinta-feira, aparece um jornalista representando o jornal Metro News. Veio para dar apoio a outro colega do mesmo jornal que estava na cobertura do caso desde segunda-feira. Alto, peito “bombado” e estufado, o menino (não mais de 25 anos) era destes que se “acha” maravilhoso, lindo e gostoso. Circulava pelos corredores do Tribunal e pela sala de imprensa com a camisa de dois botões abertos, como se fosse o Brad Pitt. Tive a impressão de que estava ali mais para “galinhar” do que para trabalhar com seriedade. E não era só impressão. O “bonitinho” conversa com o outro companheiro do Metro News:
– “Tem umas gostosas aqui, meu! Cada mulher! Aquela da Assessoria do TJ até que dá prá “pegar”… To ficando doido com tanta mulher boa!”
Então eu pensei (com o perdão da palavra): “puta que o pariu… A gente está aqui trabalhando com seriedade, disputando senhas para ir ao Júri e acompanhar os depoimentos e estes moleques estão aqui mais preocupados com as “gostosas” do que com o caso, o maior julgamento da história do País? Estão me tirando!”
Muitos tapas, poucos beijos e o “homem-peruca” na Globo
Brigas, palavrões, socos e tapas também marcaram a cobertura. Nos corredores o repórter do Jornal da Tarde, Leandro, bateu boca com um foca da Folha Online. Era a vez do Leandro ir ao Plenário e o iniciante da Folha queria ir de qualquer jeito, embora não fosse a vez dele. (Havia senhas e um revezamento de 20 repórteres por vez… cada grupo ficava uma hora no plenário e depois era substituído por outro grupo). E não é que o moleque iniciante bate o pé, fala alto e ainda “dedura” para a Assessoria de Imprensa do TJ que tem um repórter do JT e outro do Estadão no mesmo grupo? Ah! O Leandro ficou irado! Aos berros chamou o moleque de “dedo-duro”! Este foi um dos muitos bate-bocas…
O outro aconteceu entre um repórter da Jovem Pan e outro do jornal O Globo, durante a coletiva que estava sendo dada pelo advogado que representou os Nardonis, Dr. Roberto Podval. No meio da entrevista, os dois se desentenderam e aos berros, quase saem no tapa…
Também só não saíram no tapa dois repórteres da TV Bandeirantes porque a turma do “deixa prá lá” separou os dois… Ambos da mesma emissora se estranharam e foi um bate-boca ferrenho!
Já o pessoal da TV Globo não ficou no bate-boca não, saiu prá porrada mesmo! Primeiro foram socos num engraçadinho que decidiu fazer graça e, quando o repórter Cesar Trali estava ao vivo, o cara, fazendo a dança do caranguejo, ficou pondo e tirando uma peruca na cabeça… Foi ao ar! O operador da TV Globo deu um puxão no cara, tirando ele de cena… E ai o peruquinha levou dois socos bem dados pelo pessoal da Globo… E não é que a lição não valeu? No dia seguinte, o peruquinha voltou, fez a mesma graça e apanhou de novo… A gente descobriu depois que ele era funcionário das Casas Bahia e que, para passar pelo portão reservado à imprensa, “colou” o slogan da RedeTV! sobre o crachá das Casas Bahia…. É… tem doido prá tudo mesmo!
No dia seguinte, os repórteres da Globo e do SBT se preparavam prá entrar ao vivo quando começou um empurra-empurra. A repórter do SBT (Samara) empurrada acabou esbarrando no repórter da Globo… Aí, o operador de VT da platinada, muito mal educado, empurrou a garota e depois deu um “tapa” bem dado na cabeça dela. Assustada, a menina entrou no ar, ao vivo, na sequência, quase chorando! Uma baixaria do funcionário da TV Globo.
Aliás, a cobertura foi uma loucura! No final do dia, o promotor Francisco Cembranelli e o advogado de defesa, Podval, davam entrevistas coletivas. Daí o bicho pegava… Era gente se acotovelando, gritando, xingando, subindo em escadas e caixotes para ter o melhor ângulo para a TV ou para a foto que estaria nos jornais no dia seguinte… Uma confusão, uma “zona como se diz no popular português…. O Coronal Ricardo Souza, da Polícia Militar e encarregando da segurança no Fórum, até tentava arrumar a bagunça, mas não  tinha jeito! Todo dia era a mesma baixaria…. educado e  muito cortês, o coronel num dos dias perdeu a paciência e, abrindo os braços, disse aos jornalistas, repórteres, cinegrafistas e fotógrafos:
– Gente, pelo amor de Deus, o que é isso!!!????
E lá fora: até a camisa e toca do timão serviram de disfarce…
O público se acotovelava cada vez que alguém da família dos réus ou das vítimas e o promotor e advogado chegavam ao Fórum. O advogado e os familiares dos réus eram ostensivamente vaiados e xingados, enquanto o promotor e familiares de Isabella eram aplaudidos.
O coitado do advogado Roberto Podval chegou a levar um soco no peito, em um dia que decidiu almoçar num barzinho ao lado do Fórum (barzinho que, aliás, me disseram pertencer a um Juiz)… Na saída do almoço, um maluco apareceu e o agrediu, esquecendo que todos têm direito à defesa, mesmo os culpados. Podval foi vaiado todos os dias e chamado de “mercenário”, “advogado do diabo”, entre outras ofensas. Em um dos dias, quando saia do Fórum, seu carro foi chutado…
Para evitar passar por situações tão constrangedoras, o pai de Ana Carolina Jatobá saía “disfarçado” do Fórum. Em um dos dias, no estacionamento do Fórum, ele olhou para os lados e, como não viu ninguém observando, tirou a camisa que usava, abriu o porta malas do seu carro e de lá tirou – e vestiu – uma camisa e uma touca do Corinthians. Uma tentativa de não ser reconhecido pelo público como pai da assassina. A imagem foi gravada pelo competente jornalista da TV Record, Leandro Santana.
Para o promotor, os aplausos: O promotor Francisco Cembranelli recebia os aplausos do público, que gritava como se fosse um jogo de futebol: “Ú, Cembranelli, Ú, Cembranelli…”. Na quinta feira, já se sentindo “próximos” ao promotor, gritavam: “Ù, Cembra!”, “Ú, Cembra!”
Durante os cinco dias, um homem ficou na porta do Fórum, amarrado numa enorme cruz e com um cartaz com a foto da Isabella no peito. Não era parente e nem amigo da família, mas queria “protestar”… Acho que ele queria mesmo era aparecer na TV e nos jornais e conseguiu: todo mundo mostrou as imagens e fez entrevista com ele… M
Meu amigo querido Plínio Delfino, repórter e produtor do SBT, comentou comigo: “é por isso que ele insiste em ficar aqui… por causa da imprensa… Queria ver é ele pregado com prego e não com uma cordinha… O cara quer é aparecer!”
E, um dos maiores absurdos que aconteceu foi o que eu chamei de “marketing da morte”…
Primeiro foi o Diário de São Paulo que mandou vários homens, vestindo a camisa do Diário, distribuir, de graça, ao publico presente na porta do Fórum, o jornal do dia, no qual a manchete, claro, era o caso do assassinato da menina…
Depois foi uma mulher que apareceu na sexta-feira, último dia do caso, entregando panfletos que anunciavam “vagas” em um cemitério. Os interessados e precavidos poderiam comprar um jazigo no local, a preços módicos e pagamentos em parcelas a perder de vista. Na cara de pau, a mulher entregava os panfletos e dizia: “olha, é lá que está enterrada a Isabella.Você pode ter seu túmulo do ladinho do dela!”
Confesso que fiquei com muita vontade de entrar para o time da TV Globo e sair na porrada! Um abuso que merecia mesmo que aquela mulher levasse uns tapas!
Mas me acalmei e pensei: UFA! Ainda bem que é o último dia…

Bem, último dia deste caso porque fomos assim em casos anteriores (como o da Suzane Richtofen) e assim seremos nos próximos casos.

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Comentários

  • Luciana  On maio 25, 2010 at pm:33 pm

    Nossa, por isso detesto coletiva de imprensa!!! Aliás, o jornalismo (generelizando mesmo!) de hoje me envergonha!!!! Sou assessora de imprensa, com espírito de repórter, e vejo diariamente o amadorismo de muito coleguinha!! Conheci o Chastinet, quando acompanhei uma série de reportagens, e ele é um dos poucos que se salvam!! Deus abençoe os bons jornalistas!!!!!!!!

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