Chris Carrabba: confissões de um coração


‘Chris Carrabba’/vocalista do Dashboard Confessional

Leu Walt Whitman pela primeira vez quando tinha 17 anos – Folhas das folhas de relva, numa tradução de Geir Campos com introdução de Paulo Leminski.

Passara anos pensando no dia em que os versos do poema Canto da estrada aberta fariam sentido em sua vida: “Daqui em diante não peço mais boa sorte, boa sorte sou eu. Daqui em diante não lamento mais, não transfiro, não careço de nada; nada de queixas atrás das portas, de bibliotecas, de tristonhas críticas; forte e contente vou eu pela estrada aberta”.

O dia chegara, enfim, há 11 anos, quando sua filha nasceu e o seu coração descobriu um sentimento maior do que todos que sentira até então. Superior aos paraísos artificiais, às baladas até o amanhecer, à vaidade profissional, ao convívio com os vampiros sociais, à procura do próximo corpo na cama.

Passara a achar graça e tédio nas pessoas próximas (e de sua idade) que ainda sentiam prazer em andar em grupos, conversar sobre relações amorosas, varar noites em bares e clubs. Reconciliado com a condição canceriana, sua ascendência leonina transformou a família (reinventada) em fonte nº 1 de prazer.

***
Não quero a flor mais bonita do jardim – a sua beleza murcharia fora dali. Não quero a estrela mais bonita do céu – ela perderia o brilho longe da constelação. Não quero ser vitorioso na corrida pela sua aprovação – eu não acredito mais em vencedores e  em perdedores. Eu só acredito na minha paz.

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Quando ela me acorda, às 9h, e me chama de dorminhoco, sinto que Deus existe e tem 11 anos. É algo que só quem tem uma garotinha sabe o que significa – do contrário, parece tolo, banal. Quando ela impõe a sua vontade de ir para o computador antes que eu tome meu cappuccino, penso que nem todo escravo é infeliz.

***
O tempo encontra soluções para a dor – cedo ou tarde. E aí podemos sorrir ou tirar alguma lição da experiência. É simples, mas só aprendemos isso depois dos 30 anos. Do contrário, viramos burros falantes ou pegamos um trinta-e-oito e detonamos a cabeça (e suicídio funciona apenas para rock star como Kurt Cobain).

Meu exercício de sempre tem nome: eu mesmo.

* Texto publicado originalmente na coluna Hagamenon Brito, no jornal CORREIO, dia 12 de janeiro de 2010.

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