Memoria: a morte do músico Zé Gomes


Só hoje fiquei sabendo da morte do grande músico brasileiro, Zé Gomes, pai do também musico André Gomes, e um dos maiores talentos da musica brasilera de todos os tempos.

Zé Gomes começou sua vida artística tocando na década de 50, no grupo tradicionalista “Os Gaudérios” ao lado de Moraes Filho, Jarbas Cabral e do acordeonista Neneco. Sua marca revolucionária apareceria nos ousados arranjos que criava, desafiando os conceitos da época.

Dono de uma formação erudita – tocava Beethoven, Bach, Chopin – jamais procurou rótulos para sua música. Ao contrário, o dial de seu rádio buscava ansiosamente as emissoras argentinas e seu alvo preferido era um instrumentista desconhecido que tocava música criolla com o toque mágico da modernidade. Seu nome Astor Piazzolla. Entre os brasileiros, Jacó do Bandolim e Villa-Lobos eram os seus preferidos. “Nunca me deixei prender por certos pensamentos. Devemos exercitar nossa liberdade”, é uma frase que define o espírito inquieto do músico gaúcho, que logo deixou Ijuí para trás e veio para a capital.

Em Porto Alegre, ingressou na OSPA e tocava Vivaldi com a Orquestra de Câmara da Escola de Artes. A principal característica sempre mantida: não perder de vista a universalidade das harmonias.

O arranjo feito para o clássico regionalista “Os homens de preto” se ouvida hoje, passa a sensação de ter sido gravada ontem, soa atual, nova, renovada, ousada para a época. Com “Os Gaudérios”, ficou oito anos, depois procurou conhecer o Brasil. O interior do Brasil.

O corpo foi cremado em São Paulo, onde vivia, este compositor, arranjador, luthier, maestro e pesquisador gaúcho José Kruel Gomes, internacionalmente conhecido como Zé Gomes. Ele faleceu dia cinco de junho vítima de infarto, aos 72 anos.

Zé Gomes começou a tocar profissionalmente aos 14 anos. Natural de Ijuí, aos 17 muda-se com a família para Porto Alegre e ingressa no Movimento Tradicionalista, com o grupo “Tropeiros da Tradição”, com Paixão Cortes. A formação serviria de modelo a todos os conjuntos que os sucederam.

No início da década de 1950, integrou o conjunto “Os Gaudérios” junto com Barbosa lessa. Aos 18 anos,  viaja com o conjunto à França, para participar do Festival Internacional de Folclore promovido pela Universidade Sorbonne, e volta ao Brasil com o primeiro prêmio.

Em 1955 trabalhou com João Gilberto, juntamente com Luis Bonfá, compositor da música do filme Orfeu no Carnaval, que já tinha elementos da Bossa Nova.

Em 1958 criou o Curso de Violão José Gomes, no qual ensinou mais de 1.500 alunos em uma década de funcionamento, época em que freqüentemente palestrava em seminários culturais ou integrava a OSPA.

Em 1966, Zé Gomes funda, com Bruno Kieffer e Armando Albuquerque, o Seminário Livre de Música (Selim), que dois anos depois vira o Centro Livre de Cultura. Em 1969, por concurso público, torna-se professor na Escola de Artes da UFRGS.

De 1968 a 1971 participa, como arranjador, de vários festivais. Muda-se para São Paulo no início dos anos 70, onde, além de continuar lecionando, compõe músicas para teatro, trilhas para cinema,  fábulas infantis, quartetos, trios e duos instrumentais, corais, peças para viola e rabeca (instrumento que mais tarde viria a construir), e música sacra.

Zé Gomes participou de mais de 200 gravações, com Chico Buarque, Heraldo do Monte, Arthur Moreira Lima, Diana Pequeno, Grupo Tarancon, Renato Teixeira, Elomar, Pena Branca e Chavantinho, Paulino Pedra Azul, Marluí Miranda, Alzira Spíndola, João do Valle, entre muitos outros. Ultimamente, gravava discos independentes com suas prórpias composições.

É considerado um dos maiores intérpretes de Villa-Lobos, cuja obra estudou profundamente. Dedicou-se ao estudo da rabeca e da viola de cocho.

Com os parceiros Almir Sater e Paulo Simões, viajou a cavalo mais de mil quilômetros pelo Pantanal, para fazer um filme sobre o homem pantaneiro e pesquisar a música da região.

Criou inúmeros projetos de artesanato e fabricação de instrumentos musicais, tais como rabeca acústica,  chorongo ou baixo acústico, calimba cromática, violino mudo.

A última vez que se apresentou em Porto Alegre foi ao violino, acompanhando Almir Sater no Projeto Acorde Brasil, do Sesc, em 2007

Mais sobre Zé Gomes aqui, no belo texto de Juarez Fonseca

Jornal Já

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