A morte do Menino Azul


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Menino Azul
Por que as crianças morrem? Por que morre uma criança azul? Que tocava violino, que tocava as pessoas, que sabia chorar um choro tão sentido, que convocava a solidariedade. Diego poderia ter se perdido de tantas formas em Parada de Lucas, mas se encontrava. O Rio o conheceu porque ele sabia chorar e tocou violino no dia da morte do seu professor. O Rio não entendeu esse final.

Saber chorar é arte. Fugir dos riscos que cercam meninos negros nas áreas ainda não pacificadas do Rio é arte. Vencer uma meningite aos quatro, estudar violino no meio de tiroteios é arte. Fazer-se amar é arte. Diego, o artista, fez chorar quem o conhecia e quem não o conhecia, quem falou com ele, e quem nunca o ouviu.

Ele era um dos meninos do AfroReggae e alguém pode dizer que existem tantos outros diegos sendo atendidos por algum programa do grupo cultural, ou por outros movimentos e organizações que usam a música para envolver as crianças cercadas de perigos, drogas, tiros e medos. Por que então um deles era tão valioso? Porque o que estimula quem busca as crianças para protegê-las é saber que cada uma tem seu valor, único, insubstituível.

Diego carismático, bom, sensível, com seus projetos de ser artista era único para quem o amou. Essa é a teimosia de quem trabalha com programas em áreas pobres do Rio ou de qualquer lugar do Brasil. As estatísticas vão dizer que só um percentual pode ser integrado ao programa, protegido, resgatado, valorizado, mas tem que se lutar por cada um.

As estatísticas dizem que ele entraria em breve no grupo de muito risco. Morreu aos 12, de leucemia aguda. Mas jovens de 15 a 24 anos têm um risco muito maior de integrar os números das mortes por causas externas, ou seja, violência. Se forem do sexo masculino, o risco cresce. Se forem negros, cresce ainda mais. Jovens negros têm risco 130% maior que jovens brancos de serem vítimas, mostrou o Mapa da Violência divulgado esta semana pelo Instituto Sangari, com base nos dados do Ministério da Saúde, segundo informou o “Estado de S. Paulo”. A ONG revela que esse dado piorou recentemente. Em 2002, a relação era de 1,7 jovem negro vitima da violência para cada jovem branco. Felizmente caiu a violência entre jovens brancos, mas, infelizmente, ela aumentou no caso dos jovens negros, e a relação subiu para 2,6 para 1, em 2007.

Outras estatísticas, que têm sido divulgadas por estudiosos, mostram que se os jovens forem do Rio, o risco cresce. Se morarem na periferia do Rio, o risco é ainda maior. É uma escalada estatística o perigo que cerca um jovem negro da periferia do Rio, como era Diego.

Mas Diego estava bem encaminhado pela família, pelos muitos amigos, pela música, porque fazia parte da família AfroReggae, porque tinha sonhos, por ter comovido tanto ao mostrar sua dor na morte do Evandro, seu professor. Ele provavelmente superaria os perigos que neste momento cercam tantos outros. Isso torna essa morte ainda mais dolorosa. Ele viraria um adulto como a criança $foi. Até onde iria com sua música, suas amizades, sua sensibilidade? Eram bons os prognósticos.

“Pequeno grande Diego”, definiu Júnior, coordenador do AfroReggae, em um dos e-mails que disparou pela sua imensa rede de amigos, em todas as áreas da cidade, todas as classes sociais. Nesse e-mail ele contava a notícia mais trágica: a de que não era uma apendicite, como se pensava inicialmente, mas um inimigo muito mais perigoso: a leucemia aguda. Júnior contou da “dor sem tamanho” que era vê-lo naquelas horas finais.

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, o definiu como um “parceiro”. Como pode o pequeno Diego ter ficado tão grande tão cedo? Ser considerado um parceiro pelo secretário de Segurança que está implantando as Unidades de Polícia Pacificadora; ser visto como um símbolo de um movimento que tem mais anos de vida do que ele pode ter; tudo é mistério em Diego do Violino.

Ele ficou conhecido, como todos se lembram, por uma foto que expressou a dor de todo o AfroReggae pelo assassinato do coordenador Evandro João da Silva. Quem acompanha o trabalho do grupo sabe que os meninos do violino eram um projeto especial para Evandro, mas a ONG sempre foi mais conhecida pelos grupos de percussão. Era uma experiência relativamente nova.

A violência estúpida que levou Evandro, e os detalhes que ficaram conhecidos depois da morte, como o comportamento desqualificado dos policiais que abordaram os assassinos, tudo foi sumindo lentamente das mentes. São tantos os absurdos que os mais recentes ocupam o lugar dos mais antigos, e a violência vai sendo banalizada. Mas o rosto bonito e triste de Diego, com aquela lágrima enorme e aquele violino do lado, ficou marcado na memória.

Esse é outro mistério de Diego: sua instantânea capacidade de tocar as pessoas e de se fazer entendido. Disse com seu rosto que a morte de Evandro doeu, convocou o sentimento de quem estivesse indiferente. Tão impressionante esse fenômeno que ele foi um dos três escolhidos para receber o Prêmio Faz Diferença, do GLOBO, na categoria Rio.

Diego ficou na memória como um lamento forte, um alerta, uma convocação geral, uma parada no tempo em que vamos perdendo aos poucos a sensibilidade. Porque ele tinha o lindo apelido de Azul, porque ele tocava um instrumento, porque ele não tinha nada que morrer agora com tanta coisa a viver ainda, porque seu choro em outubro foi tão sentido que só de ver a foto muita gente chorou com ele, porque ele era pequeno e grande esse espaço hoje é dele. Todo dele: o menino Azul.

Miriam Leitão Coluna no GLOBO

PS: Diego ficou conhecido ao emocionar as pessoas enquanto tocava, chorando, seu violino no enterro do coordenador do Afro Reggae Evandro João da Silva, morto em dezembro do ano passado no Centro.

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