Irmãos educados em casa fazem provas

By Nilnews

Jonatas se apega ao livro, enquanto Davi estuda com o pai, Cleber, no computador, para prova decisiva
Os irmãos mineiros David, 15 anos, e Jonatas, de 14 anos, que saíram da escola e são educados em casa pelos pais há dois anos, iniciam nesta segunda-feira uma série de provas compatíveis à educação básica por determinação judicial.

Filhos do casal Cleber de Andrade Nunes e Elisabeth Nunes, de Tímóteo (216 Km de Belo Horizonte), a dupla terá de enfrentar quatro dias de exames para mostrar para a Justiça que possuem conhecimentos gerais iguais aos alunos que freqüentam a escola normalmente e, por isso, podem continuar sendo educados em casa pelos pais.

De acordo com Nunes, a primeira notificação judicial determinava que os garotos deveriam fazer provas de matemática, geografia, ciências e história – já que os irmãos afirmaram para o juiz que estudam em casa português, inglês, hebraico e informática. Só que desta vez, a notificação foi diferente: David e Jonatas terão de fazer provas de português, matemática, inglês, geografia, história, ciências, artes, e educação física (incluindo conhecimentos sobre a história do handball, basquete, futebol, atletismo e outros esportes de alto rendimento).

As provas foram elaboradas por uma comissão de 16 professores das secretarias municipal e estadual de Educação e os meninos só receberam o conteúdo programático das provas na segunda-feira da semana passada.

As novas regras desagradaram o pai dos garotos, que ficou receoso com as novas disciplinas incluídas na avaliação. “Acho um absurdo avisar com menos de uma semana a data das provas e ainda incluir novas matérias. História do esporte, por exemplo, nunca vi em escola nenhuma. Pelo que eu saiba, as avaliações de educação física são com aulas práticas”, disse.

David e Jonatas estão sendo submetidos a uma pressão muito grande e até receberam a visita de uma assistente social, que foi avaliar em quais condições os meninos vivem em casa. Para dar conta de estudar tantas disciplinas, os meninos tiveram aulas particulares de matemática e enfrentam uma maratona diária de estudos na biblioteca da cidade, para que possam ficar mais sossegados, sem interrupções.

Apesar do sacrifício, o pai acredita que os meninos têm condições de ser aprovados nas provas, que terminam só na quinta-feira (21). “O que eu queria mesmo é que outros alunos da rede pública fossem submetidos ao mesmo exame, só para a gente fazer uma comparação justa”, disse Nunes.

O casal está sendo processado na área cível (por causa do descumprimento do ECA) e também criminalmente (por abandono intelectual) porque tirou os filhos da escola há dois anos, sob a justificativa da má-qualidade do ensino brasileiro. O problema é que a legislação brasileira não permite a educação em casa e obriga que as crianças sejam matriculadas nas escolas.

Nunes, o pai dos meninos, viajou para os Estados Unidos (onde o método é permitido) e conversou com famílias que educaram os filhos em casa. Se encantou com o projeto e resolveu aplicar a mesma coisa dentro de casa. “Comprei todo material que os americanos usam. Eu não concordo que meus filhos fiquem presos a um currículo”, disse.

Um conhecido da família resolveu dedurar a decisão de Nunes para a o Conselho Tutelar – que foi investigar o caso. “Eles chegaram aqui achando que a gente estava explorando nossos filhos, sabe? Colocando eles para trabalhar. E não é nada disso. Eles estudam seis horas por dia como qualquer outro jovem da mesma idade”, disse.

Questionado sobre a importância de manter os meninos na escola para que eles tenham amigos e outro convívio social que não seja restrito à casa da família, Nunes tem a resposta pronta.”a escola não é e nem será o último ambiente socializador. Meus filhos brincam e têm amigos”.

No processo cível, o casal foi condenado a pagar 12 salários mínimos e rematricular os filhos na escola. Nunes recorreu da decisão e agora aguarda ansioso o momento em que os filhos farão as provas para, enfim, mostrarem se têm ou não capacidade intelectual.

foto: Carlos Eller/ESP. EM/D.A. Press
G1/UAI

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